quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Preciso também de distância no que tange à essa escrita que talvez me revele (como se já não bastassem os vácuos imensos entre nossas entranhas estranhas, os percursos infindáveis entre meu corpo e tantos outros, espremidos no mesmo vagão de trem, a doce ilusão de um único caminho). Me afastar do papel é fácil. Depois de certas quedas, não tão simples é alimentar a menininha que rabiscava pretensões de sonhos no embrulho de pão francês. Quantos aos outros papéis – o de filha, o de amante, o de empregada, o que extrapola todos os anteriores e por isso se esconde, envergonhado – quem me dera possuir a liberdade de decidir qual não mais me cabe (o amassar e jogar na cesta). Se ao menos a reciclagem metafórica fosse mais indolor. Um dia.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A dor que levo só eu sei. Grande demais para esconder sob a roupa, minha tristeza vara bolsos e botões, sempre à procura de mais espaço. E lugares não faltam em mim - sou toda lacunas e vazio. E não há alma ou corpo que me preencha - desertos sem ecos para o grito que jamais soltarei.

PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Se o mundo é uma piada de Deus, o cara tem um humor infernal.

O dito pelo interdito

Já dizia o velho Dito:
mais vale um sonho na mão
que uma realidade em vão;
quem se esmera
sempre dança;
fechem-se as portas
da esperança!

Haja a barriga
sem o rei;
cara-de-pau
com madeira de lei;
porque em terra de cego,
quem tem olho é rei;
quem não tem, é real.
E se viemos do nada
é pra irmos pro tudo no final.

Por linhas tortas lê-se a vida;
coloquemos o dedo na ferida.
Não aceitemos o presente
por falta de futuro;
a pseudo-liberdade pela aparente
falta de muro;
a compra a prazo que mente
falta de juro.

De mãos dadas, meu irmão.
Meu irmão, meu irmão:
porque a união
faz o açúcar.
Eu espalhei flores por toda a casa. Apenas plástico barato, mas colorem (muito pouco, eu sei) essa rotina cinza, sem sentido, por que ainda? Eu resolvi aprender de novo tudo do que desisti há tanto tempo. Os dedos tropeçam nas linhas dos planos a serem refeitos, mas a farsa da esperança pode ser tão sincera! Contudo, não o é. Eu liguei para a minha agenda telefônica inteira: atrapalhei abraços sexuais, interrompi propostas de emprego já para sempre perdidas e alcancei uma ou duas conversas ocas. Para quê? Eu retomei meus livros, minha cafeína e os filmes antigos da sessão televisiva de domingo: às vezes, nada mais faz tanto sentido. Às vezes se torna insuportavelmente dolorido. Ainda assim, às vezes passa.
Sempre em segundo plano. Eu só queria ser a pessoa mais importante da vida de alguém. Talvez da minha. Largar o vício do empurrão inicial, romper os cordões umbilicais e as cordas bambas desses afetos todos. Não-correspondidos.
Amor pluri-significativo
Em quaisquer idades e circunstâncias:
Eu te amo porque te amo.
- É simples como a chama aprisionada em cristal
e o resfolegar aflito de um náufrago.
Já não há escolha e o amor é fato
Ardendo antigo como as fotos empoeiradas
E as orquídeas mortas dos vasos.
Benção cabal, sino sagrado ecoando em uma madrugada vazia
Álacres almas aladas,
O que nos resta é a essência.

O amor perdeu a sua casca inútil
e se apresenta em toda a sua corrosiva doçura.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Você andou me escondendo coisas demais... Poxa, como é que você se apresenta assim, mal dizendo o nome, me ocultando seu medo de chuva, seus vinte e poucos anos, sua cor favorita, sua predileção por Beethoven? Como você aparece do nada e muda tudo? Por causa de você tive de trocar os móveis da sala de lugar, colorir meu quarto, jogar fora minha orquídea de plástico e comprar um vasinho de violetas. Vou te falar: você me dá um belo de um trabalho. Por você coloco estantes e cabelos em ordem a fim de causar alguma boa impressão, uma memoriazinha que seja, você já não se lembra de mim? Eu sou aquela umazinha que te segue pelos becos, que rouba seus diário e que sonha em te seqüestrar. Nenhuma recordação? Mas olha aqui, eu estampei sua foto na minha camisa, tatuei seu nome na testa, eu pichei poemas de Florbela no seu muro. Nada ainda? Mas como, se quem se esconde é você? Eu me mostro, me declaro, me dispo, saio cantando quiçá nossa música na chuva: eu só quero que você siga/ para onde quiser/ que eu não vou ficar muito atrás... Ah, você já vai? Não é cedo ou tarde demais? Nada ainda? Não, não me incomodo: pode ir. Quem sabe em outra esquina.
Minhas meias têm buracos. Meu colchão não é anti-ácaro. Minhas blusas têm manchas de tempo e de suor. Meu varal é improvisado. Minha pia sempre tem louça. Meu cabelo sempre tem caspa. Minhas horas sempre têm pressa. Meus possessivos nunca têm dono ou esperança.
ou
Minha vida não tem meios-buracos. Minhas horas têm manchas de suor. Meu cabelo não é anti-ácaro. Meu colchão tem pressa. Minha pia ainda tem louça. Meu tempo seca no varal. Improviso possessivos. Minhas blusas não têm dono. Minha caspa não tem esperança.


Publicado no Livro da Tribo 2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

“Tristeza não tem fim... felicidade, sim.”

O espelho não lhe dizia muita coisa. Sem eufemismos e a hipocrisia das conversas de fila para o emprego – não dizia. Com a princesinha pálida tudo era tão simples! Não, não precisava ser a mais bela – já se acostumara a passar anônima dentre a multidão. Além de que, ultimamente, até via certa graça no seu ligeiro estrabismo. No fundo e antes de todas as coisas, seu único desejo era uma companhia, qualquer uma. Escutar um bom-dia resmungado entre um bocejo e outro. Raclamar da cueca pendurada na torneira do chuveiro. Receber um cartão que fosse a cada novo inverno completado. Olhar seu reflexo e visualizar além um vulto esfumaçado com seu café frio a meditar, semblante rígido, sobre o próximo sorteio da Tele Sena.
“Eu te amo, eu te amo, eu te amo...” A frase, pequena, em toda a sua revelação e quase indelicadeza, se repetia eternamente: círculo vicioso, labirinto de espelhos, progressão geométrica ou apenas humana falsidade. Bocas apertadas em súbita explosão; labiozinhos contornados de incipiente buço dos colegiais em transe; bocarrões de glutão que a tudo desejam tragar e engolir; ah, eram tantos maxilares e cordas vocais e olhos e pernas e cotovelos e nucas e bobas mãos espertas demais a insistirem sempre e ainda sempre no mesmo exercício... Cansara. Delicadamente foi suprimindo o verbo de cada dicionário (as visitas às bibliotecas e a tesoura escondida no avental), desfazendo cada lenço bordado, alterando cada filme, música e epitáfio. Em pouco tempo, por falta de uso, extingüiu-se o termo da linguagem corrente: de clichê metamorfoseou-se arcaísmo, graças a uma empreitada dita por todos impossível. Mas como profetizara já o poeta, quem tem asas voa... e não há muro que detenha um objetivo levado com tamanho amor.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

“Haja hoje para tanto ontem.”
Tão pouco espaço na minha bagagem: e ainda a irritante mania de preparar a mala com a carona já buzinando na porta. Levo na bolsa os conselhos da mãe, os medos do pai; as expectativas e as convenções da parentela toda; as esperanças dos amigos, uma coleção de casos mal-resolvidos, as anotações da aula de sintaxe e uma canção da Marisa. Resta uma lacuna ou outra na mochila, que ocupo com balas de menta e o dinheiro (sempre contado, minguado) da passagem. É hora de ir. E o meu maior desejo é deixar esses pacotes todos na primeira esquina, descalçar os sapatos e seguir de mãos abanando, sem lenço, documento e guarda-chuva: que venha a garoa, o imprevisto e a liberdade.


PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2009
Caí do 20º andar, escorreguei do andaime, o elevador despencou, distraí o passo em um poça infinita de lama... seja em ideologias baratas ou em buracos negros, eu estou sempre caindo. Escorrego nas minha próprias mentiras e despenco todas as vezes em que, tentando ser neutra, vou para cima do muro. A cada vez que levanto do chão e sacudo a poeira, já é esperando pelo próximo tombo: tempo virá ainda do equilíbrio perfeito nas cordas bambas do meu dia-a-dia. Por enquanto, vou seguindo, mesmo que o caminho me espere com uma arapuca a cada esquina e que minha queda não sirva sequer para atrapalhar o tráfico, como a do construtor do Chico. O aprendizado da dor, a dor do aprendizado. A cada manhã, um recomeço.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

“Vamos começar/ colocando um ponto final”.
(Paulo Moska)

A idéia do eterno recomeço, a cada fim de ano, a cada fim de semana, a cada sol poente, me cansa, me enfastia e me esperança. Apesar do conflito de não ser deveras o que planejei ser, o que seria de mim (de nós), sem a permissão divina de a todo instante passar a vida a limpo? Sei que o papel em branco da versão definitiva é já rascunho: depois de um certo tempo, aprende-se a lidar com o fato de o ideal vir sempre com os pés sujos de lama. Uma vida nova me espera e me espreita a cada esquina, soprando seu mudo convite. Mas a amnésia ainda não me atingiu em cheio com seu vaso de flores caído do último andar: manchando o meu lençol mais alvo do enxoval para celebrar esse encontro tão esperado entre minhas metades desiguais, as nódoas dos vícios do hábito e da perversão.
Ponto. Qualquer passo em direção ao novo pressupõe o retrocesso. Somos caranguejinhos a povoar as palmas de algum deus perdido: postar-se à frente, seguir em linha reta visando a glória é fantasia hollywoodiana. Sendo assim, comecemos já do ponto final: sem pausas para vírgulas parágrafos interrogações. Especialmente sem espaço (os dois dedinhos da aula de português viraram tecla – e uma só) para os parágrafos, que eu tenho medo da lacuna e dos vazios. E ponto.

“Pelo menos já é um sinal/ de que tudo na vida tem fim”.
(Paulo Moska)

sexta-feira, 6 de julho de 2007

O meu tema preferido é o tempo. O tempo que não pára, que não pensa antes de dobrar a esquina. O tempo de semear e o de colher, e a sempre longa espera. Esse tempo frio, de um céu sem sol e sem nuvens – nem um alento, nem um amigo. Mas eu sinto frio o tempo inteiro – não se incomode, fique com seu agasalho. Apenas me conte um pouco sobre o seu tempo de vida: o de menino, o adolescer. Me faça rir entoando aquela canção boba sobre jardins proibidos e rosas invioláveis. Olhe para mim: gargalhei tanto que me esquentei toda, sou capaz de pular naquele chafariz, não acredita? Como foi o seu tempo de banho em chafariz e nadar escondido no córrego do bairro? Sabe, eu gosto tanto de água... já me disseram que ela simboliza o tempo com o seu eterno deslizar, e que uma vez dentro de um rio se perde algo de essencial, mas eu só acredito no que vejo: gelo, garrafas Lindóia e vapor que solto pela boca em dias assim gelados. Agora me fale mais, sobre qualquer assunto, sob qualquer condição. Preciso tanto de um amigo... de um que não vá embora. Pra onde você vai? Nepal, bordel, outra rodoviária? Me leva com você? Prometo não aborrecer, eu só quero uma presença que não se esvazie. Clepsidra... o nome consegue ser ainda mais bonito que toda a beleza da idéia de um relógio de água. Imagina só... Já ouviu falar em banho espiritual? Hoje tem gente que faz de banho de loja lavagem moral. Cada um se salva como pode, não é? Mas não quero falar sobre o hoje, que o tempo é curto e o meu anda tão grávido de amanhãs... Seu ônibus chegou? Como, se ainda tenho de falar? Qual é mesmo o seu nome, o seu Deus, você acredita em biogenética? O que você faz da vida e com ela? Você já quis morrer? Não, eu entendo, mas não preciso das respostas, apenas das perguntas... E além disso, você tem um semblante tão expressivo, ele fala por mil silêncios. Pode ir, eu fico por aqui mesmo, esperando pelo meu tempo, o de partir. Boa viagem.
“E a alegria cedeu lugar ao tédio vulgar da vida cotidiana e ao sentimento de uma perda irreparável.”
(Anton P. Tchekhov)

A perda e o perdão extraviado. Não sei me absolver de nenhuma das 16 acepções dicionarizadas do verbo dos perdedores. Seja o ônibus, a tarrachinha do brinco, o lugar ou o amigo amado... a culpa é dolorosamente minha. Por mais que insista no sorriso social diante do “Tudo bem?” cotidiano... por mais que diga que cheguei a tempo, que comprei um brinco com gancho, que arranjei outro... por mais que brigue para sempre com São Longuinho – até a próxima vez em que me trancar novamente dentro de casa... não, não está nada bem. Na verdade, não agüento mais espalhar migalhas pros pássaros toda vez que tento achar o caminho de volta. Quero me livrar da sina de Pequeno Polegar e de Alice no labirinto dos espelhos. Pra ser sincera mesmo (posso?), ser ou ficar privada de; cessar de ter ou deixar de sentir; sofrer a perda, o prejuízo de; não aproveitar; ter mau êxito em e as outras onze acepções do verbete já andaram por tempo demais sapateando sobre os meus projetos de vida. Cansei de entoar a “Psicologia de um vencido” como hino...eu quero as batatas do Quincas Borba! Eu quero ser mais que uma Macabéa nessa cidade fria! Eu quero as minhas tarrachinhas de volta! Ah, São Longuinho... me ajude a me encontrar que te darei três pulos.

“Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Enquanto espero a água do chá ferver para acalentar mais uma madrugada, tento um qualquer assunto para rabiscar aqui. São minhas pseudo-pretensões literárias em ação e a busca por uma disciplina mínima: ao menos uma linha por dia. Vamos lá, Carina: conte sobre as suas paixões novas e a insistência em cometer os erros velhos; pode falar sobre essa sua incapacidade brutal em seguir qualquer ordem na rotina; sobre essa sua inconstância não obstante a permanente sensação de fracasso. Isso, menina, vamos lá: nos relate a sua impotência. Queremos os detalhes mais sórdidos: quantas vezes você negou ajuda por preguiça? De quem você fala mal pelas costas? Quem você bajula pelo status? Qual é o seu preço? E o seu ponto fraco? Desabafe, sim, pode chorar. Se descabele, se desespere, que faz bem à saúde. Aliás, que saúde? Você realmente pensa que essas caminhadas matinais e incrivelmente esporádicas são suficientes para curar a sua cólica, a sua gripe, o seu mais novo vício por cafeína? Chore, Carina, chore. Não há mesmo muito remédio para você, menina. Derrame todas essas lágrimas sobre o teclado e erga a taça dos vencedores que escrevem ao menos uma linha diária. Parabéns, você conseguiu. O prêmio é seu. Agora vai tomar de vez esse chá e dormir: você merece.
Hoje não estou com ânimo para trocadilhos. Guardo minhas infâmias para a próxima oportunidade. Hoje Deus que me livre das literaturas. Deixo a poesia da vida para quem sabe lidar com ela. Dispenso os lirismos e o pôr-do-sol memorável: quero só mais um dia de café amargo, escritório fechado, marmita fria e conversas formais pelo telefone. Não quero saber de realidade que não seja a mesquinha e cotidiana: ao menos por hoje. Um trabalhozinho vulgar pelo salário medíocre, amizades de corredor e um cinema ao fim do mês: mais nada. Saber que posso mais dói muito. Hoje aposento minha camiseta do Che e os meus cds do Chico. Cansei de lutar pela paz que nunca alcanço. Hoje, quero só o meu casulo... e que se exploda o mundo.

Publicado parcialmente no Livro da Tribo 2012

terça-feira, 19 de junho de 2007

“No lo dudes, hermano: abre todas las puertas.
Aunque nada haya dentro.”
(Luis Alberto de Cuenca)

Esqueci a chave da porta de entrada. Suspeitam de mim se busco encontrar um caminho pelos fundos. Pular a janela fere meus princípios básicos de seriedade e sedentarismo. Já não acredito em Natal para me aventurar pela chaminé. Não acredito já no homem naturalmente bom de Rousseau para bater à porta do vizinho implorando ajuda. Nunca brinquei de fugitiva para tentar um túnel. Não consigo empregar o grampo de cabelo com outra finalidade que não seja a de vaidadezinha feminina. Métodos mais bruscos, como o arrombamento da porta, não encontram forças em mim – nem a de vontade, nem a braçal. Apelo para São Longuinho e para um quarto barato de hotel. O primeiro não me dá ouvidos; o segundo me oferece um colchão cravejado de percevejos. Amanhã corro atrás de um chaveiro. E de algum verdadeiro amigo, também. Cansei das minhas noites vazias – em casa ou fora dela.
“E é sempre a chuva nos desertos sem guarda-chuva(...)”

Ela esperava. Atenta. Paciente. Na sala vazia de móveis e de cores, o silêncio denso. Apenas sua respiração e as engrenagens do eterno relógio. Um fio de voz – talvez um suspiro angustiado, nada é certo – às vezes emanava de sua figura, sempre mais curvada pelo tempo: uma corcunda de dor e expectativa. E nada. Nada. Nem um sopro de vento favorável, nem a mão do Criador estendida em ajuda e caridade. Contudo, ainda assim, a espera. Acreditava no Impossível: era o que bastava.

“ O mais é barro, sem esperança de escultura.”
(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 31 de maio de 2007

“Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar.”
(Oswaldo Montenegro)

Sonhar é para poucos. Amar, para talvez ninguém. Há uma ética capitalista pequeno-pequeno-burguesa que limita não só nossas viagens em terrenos reais (a passagem inacessível, a burrocracia que nos segura por uma suposta segurança, o trem sempre lotado demais, o tempo curto para tantos périplos), mas também nossos passeios (imprescindíveis) no campo do onírico. Não há tempo. E toquemos a marcha pra casa, que já é hora de banho e salgado devorado às pressas antes de outro ônibus e outro emprego. Pode ser que entre esses vai-e-vens surja o amor que nos abrigue em seu colo de fuga e sonho. Mas é tudo tão impossível nessa terra em que nada frutifica: as veredas do imaginário se estreitam a cada passo. Amar é para poucos. Sonhar, para talvez ninguém.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

“Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais.”
(Oswaldo Montenegro)

E ainda essa vez os reencontros – comigo, contigo, consigo (às vezes). Eternos despertares para o mundo, nem sempre indolores. No tempo tênue, os mesmos reencontros se repetem – por ironia, na mesma esquina, diante das mesmas pessoas – com uma nova lição ou desaprendizagem nova. Os amigos perdidos que reaparecem na nossa sala e no álbum de retratos. E também a velha amiga de infância que nos faz atravessar a rua a fim de evitar o sorriso amarelo e constrangido. Por vezes, ela pode ter igual idéia, e ao nos pilharmos conjuntamente em falta, retomamos o elo amigo perdido entre café e gargalhadas. No mais, pouco resta e as fênix já não podem renascer de tanta cinza acumulada. As reuniões de 10 anos de fim de colégio só satisfazem a uma curiosidade maligna e ao nosso velho instinto difamador. No menos, os diálogos com velhos amigos e amores não passam de necrológios. Abafem os discursos moralistas de amor sem fronteiras: amigo, só o que tem o ombro molhado de choro e que bate na minha porta pedindo um pouco de açúcar e atenção.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Final Feliz

Ela – que sempre se acreditara a suma possuidora da misteriosa essência feminina – assistiu espavorida ao casamento de todas as suas amigas de colégio, colegas de bairro, conhecidas de vista e mesmo os das freirinhas fugidas: seu permanente hobby era colecionar buquês. Não se sabe se por acordo tácito das mais novas senhoras de respeito de Lagoa de Paz ou se por pura piedade das santas chorosas dos altares ou (quem o dirá?) se por um desvio não previsto dos búzios – ela os pegara, a todos. A concorrência, é certo, fora diminuindo de porte: na última boda, somente infernais boquinhas de oito anos também se esgoelavam pelo ramalhete franzino. Escolhia de cada um a rosa mais bonita – sempre vermelha, radiante, ofensiva – e a espremia sadicamente entre as páginas da Bíblia ou da Odisséia nunca lidas: era seu modo de conservá-las. E assim se conservou também, sempre à espera daquele que (todos o sabiam) nunca viria. Casamento da neta-sobrinha, pasmo: quem é aquela tão alva a fugir na garupa da moto escandalosa com o noivo?

Ave, Maria

Então era isso. Pôs-se a arrumar a bolsa de tiracolo – os espelhinhos partidos, o batom já no fim – não, não ficaria nada com ele. Com seu orgulho de dama da noite desprezada, contou o dinheiro (sempre cobrara mais barato dele, o cretino) e bateu a porta com um pouco de força, apenas – ele voltara a dormir. No bar quente e úmido, de paredes manchadas, um bêbado roliço e vermelho a olhava menos por admiração que por espanto. As unhas roídas até a carne viva, como não notar? Os olhos lambuzados de rímel barato, o lábio escarlate desbotado, a saia desfiando? Engoliu a cachaça com uma sede infinita e entoou sua “Ave, Maria” num quase sussurro.
“Onde paras tu, ó Imprevisto, que vestes de cor-de-rosa tantas vidas?”
(Florbela Espanca)

São os encontros marcados em dias de chuva e os desencontros vários a qualquer tempo. As declarações de amor e ódio suscitadas pelos mesmos detalhes ínfimos. O susto diante de certos inesperados braços abertos em nosso aniversário. O e-mail que esquecemos de olhar e a grande proposta de emprego, perdida. Os quilos a menos na balança, não obstante a ceia de natal. Os centímetros a mais na cintura, apesar das dietas milagrosas. As rosas que vêm sem data que as peça. É o carro que quebra na estrada, a perna quebrada no tombo, o nariz quebrado do primo pela nossa impaciência, a promessa quebrada diante da nossa tão comum humanidade. São as quebradas da vida, para as quais não bastam a ginga malandra e algum balé sublime: ousar o impossível é a única atitude racional e talvez eficiente.

Não posso com os atrasos – inclusive as sutis lentidões de noiva e o minuto errado no relógio. Minha pontualidade é obsessiva, tenta esconder uma ansiedade extrema. Sem sucesso. O tempo de chegar antes é o mesmo de já querer ir embora. Toda essa roupa-de-sair, esses sorrisos programados, essa trivialidade necessária... só quero o meu pijama e a solidão do quarto. Quero me esconder do mundo. Quero que você saia daqui e me deixe com os meus vazios de tanto tempo – e ainda assim insistentemente pontuais. Apague a luz antes de ir.
Viver de nostalgias, noite e dia. O tic-tac do relógio acompanha nossa oscilação entre a foto do velho aniversário e o café esfriando na mesa do agora. Viver de guardados, deixando o presente para depois. Para quando couber em nosso esquecido baú de recordações – cartas ilegíveis pelo tempo e pela vida, uma rosa amarfanhada e tão antiga, embalagens de bombons e presentes perdidos na memória e no espaço. É tudo casca, invólucro de borboleta frágil e amarela. Medrosa e amarela.

Afundo no Lago dos Cisnes procurando o Reino das Águas Claras e as vinte mil léguas submarinas, perdidos, perdidos. A profunda melodia (abstrata, irreal) me tira para dançar. Passos e compassos, o pathos do conto de fadas que nunca vivi. Tchaikovsky me oferece a mão delgada dos fantasmas e me leva pelos arriscados atalhos da menina com o balaio de doces, pelos excêntricos palácios de uma terra de lâmpadas do desejo, pelos bosques dos encontros secretos que terminam em morte ou na perpetuação de uma linhagem de sangues azuis. Hoje me basta um atalho para o trânsito das seis. Uma lâmpada que não se apague enquanto escrevo. Um romance que não termine no divã.
A passo de formiga, devagar e nem sempre.
A obsessão do recomeço: nas eternas promessas de ano novo, nas decisões de SPA e vida saudável diante da balança de farmácia, na tintura de um cabelo novo para uma vida que se reinicia após o rompimento do velho amor. As contagens regressivas. E o despertador programado para caminhadas matinais, antes do trânsito e do trabalho. Deixamos o aparelho no silencioso. Não, que barulho demais de nada serve: apenas anuncia em altos brados a vergonha do ato falho. Das juras tão distantes das palavras de honra de antigamente. E vira tudo pó e arrependimento na cama de hospital. Uma última pressa, uma última prece: e já não há nada.




Publicado no livro da Tribo 2012
Não, as coisas de que preciso não se parecem: minhas necessidades são antônimas, apesar de irmanadas pelo meu desejo vão. Quero alguma claridade para a minha apagada lâmpada de idéias e alguma escuridão que me proteja deste sol desavergonhadamente explícito chovendo lá fora. Um pouco de doce no paladar e na vida e o cheiro salgado da maresia invadindo meu apartamento tão paulistano. Quero ainda o quente de uma criança no colo e o vento frio que fustiga rosto, pernas e braços, desalinhando cabelos e roupas – e não a temperatura controlada e bem-comportada dos assépticos ares condicionados. As dores necessárias para um prazer maior. Os risos chorados, as brigas fraternas, o branco sujo da inocência que restou. E lutando pela paz que não tenho, somo todos estes anseios sem nunca atingir síntese ou âmago. Ainda assim, vou amando esse caminho incerto que sigo entre o emaranhado de linhas das palmas.
O teu pretenso diálogo se fecha a qualquer intervenção minha. Nesse teu mundo construído, em que nos tornamos opostos tão afins, não há espaço para os meus gritos enlouquecidos. É tudo asséptico e provido de uma artificialidade assustadora. Tanto tempo que levas para catalogar nossas picuinhas em alfabética ordem... Enquanto isso, giro em espirais insanas e ainda assim, sem me mover do meu solo sagrado. E, ainda que depressa, é apenas mais uma caminhada em vão. E, ainda que mal te respeite, sigo o teu caminho sem atalhos e surpresas. Ainda, embora.
Quero me afogar de vez nesse mar de palavras, já que só me ocorrem as metáforas velhas e os sentimentos gastos. Que as linhas não me sirvam com suas margens de salvação. Que não me sirvam. Psicografia é bem vinda. Tudo menos a culpa por esses desabafos.
A queimadura do amor ido ainda arde. Queima dura durante minhas crises de toda hora por todo motivo. A dor que madura, e apenas me torna mais verde para esse mundo cinzento de produtos prontos. Todo esse cansaço que mal aturo e que não madura de vez em flor ou lodo.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Preciso tirar todas essas coisas do armário. No quarto de despejo da minha vida, muita burocracia e muito pó. Pensamentos desencontrados e sonhos empurrados para a margem de um cotidiano opressivo e cinzento de chuva. Preciso organizar os papéis dessa mesa de canto. Na minha agenda de planos impossíveis e de utopias irrealizáveis, pouca concretude e pouca perspectiva. Planilhas sempre refeitas e uma certeza de que tudo é vão, em vão. Preciso esboçar um sorriso diante dessas fotografias apagadas e desse espelho sobre a pia. No meu diário de inconfissões, muito choro e pouca luta. Folhas soltas e o papel e a vida se oferecendo em branco. Possíveis recomeços? Mudo convite.
“Não te dizer o que eu penso
Já é pensar em dizer”
(Los Hermanos)

Os gestos que se adivinham nesse tatear de monólogos desencontrados. Uma angústia guardada pesando aguda enquanto o corpo cumpre o ritual de prazer e dor. Nos corpos que restam, abraçados; na cama que se torna repentinamente estreita demais; na ducha gelada e solitária – o teatro representado, a máscara por cair latejando já no rosto cansado. Mesmo assim, façamos meu bem, façamos – e a solidão completa e absoluta se esvai fragilmente (apenas por pouco, eu sei) com a fumaça do cigarro de depois.
Sexo casual sincero pode ser mais digno que um suposto amor pra sempre - do véu e grinalda ao ódio preso entre agulhas de crochê e uma cadeira de balanço. Pode ser feito com respeito. Ao menos, mais consideração do que a que (não) há pelos aniversários de casamento, de namoro, de filhos. Pode ser epifânico. Enquanto isso, aonde os alumbramentos com a convivência? Pode ser amor – ainda que instantâneo e rapidamente findo. Melhor que sentimento cheirando a guardado em algum fundo de gaveta.

PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2009
Preciso de uma solidão sem gosto de saudade. Apenas na medida certa, para organizar todos os meus planos impossíveis e jogar de vez no lixo aqueles sonhos empoeirando no fundo do armário. Um momento que seja meu, para praticar ioga ou me empanturrar de chocolates. Alguma liberdade, ainda que parca e tardia. Para eu me viver por algum tempo, por talvez algum motivo.

Publicado no Livro da Tribo 2012
Neste vendaval que roda à solta, muita coisa que é minha já não o é. Dentre papéis amontoados na mesa de canto, caixinhas de guardados empoeiradas e fotografias perdidas pelo tempo e pela casa, me espreitam os meus elos desencontrados. Tudo o que era central em meu destino e foi sendo afastado para a margem do meu cotidiano. Um diário de inconfissões, uma agenda de utopias impossíveis, os cds que ele me emprestou, aquela roupa para doar. E venta muito por aqui. A brisa ingênua dura anos e dessa constância cria a força de tufão, arrastando-me do que vivo. E para o que vivo hoje, se destes vendavais só me resta a certeza de uma miúda porém pungente agonia?
If you love a woman... Não ame. Não se auto-ridicularize com as infames cartas de amor. Ande com as mãos orgulhosamente espalmadas, sem palmas que as completem. Não chore. Não aceite a pretensão pífia das comédias românticas. Não se entregue. Flores e alianças são para as frágeis e vaporosas mocinhas de antigamente. Para nós, não. Abaixo os laços e os enlaces! Nós, os machões, manifestamos o nosso repúdio aos namorados e admiradores da lua crescente. Por inobjetiva, a metafísica não o é.
Pela pele,
Pelo poro.

(pelo pôr,
dispor,
despir
e depor
pelo amor
que há em nós).

Pele só,
que extravasa
em pele mesma
e norteia
o pelo nós,
o entre nós,
o por nós,
à flor da pele
de cada dia.

Pela pele tua, me depilo e repilo tudo o que não é vida e grão incessante de loucura.
Esse abraço e já não sei onde acaba meu braço e começa o seu. Esse beijo e já não sei se toco o céu da sua boca com a ponta da língua ou a ponta da sua alma no celestial ato. Essas palmas entrelaçadas e já não sei mais palmilhar caminho que não seja o seu. Esse corpo uno e já não sei explicar porque desde o princípio não foi assim.
A paixão sobe escadas, procurando eternamente o degrau mais alto, até que. Falho ato e eis um coração partido. O amor segura no corrimão. Olha para trás, saudoso. Retrocede. Movimento pendular, até que. Fim do ato e eis um corpo ido.
Tua boca oca pede beijo que a complete.
O corpo na cama. O café na mesa. A angústia no escritório. A marmita na tábua do refeitório improvisado. A vida no dia-a-dia. A morte no caixão comprado a prazo. E ainda não pago.
Saudade da puridade da infância. Da, não obstante, maturidade dos jogos de ser adulto. Da pluridade una que esboçava planos de ser no ar. Da idade sem idade: infinitude, infinidade.
No antes e no durante, no sem e no sim, no ato-fato, no fogo-fátuo, no falho passo, no poço fundo, no fim do túnel: a poesia.
Sempre um pouco aquém, mas sempre avante.
Perder as estribeiras. Caminhar de olhos vendados pela beira de viadutos cotidianos, procurando formas vagas com a palma das mãos estendidas. Gritar luz na cegueira absoluta. Profunda. Beirar a obsessão, o ridículo. Para ir muito além do beira-mar.
Para que o mundo ainda não esteja dado – dados os últimos acontecimentos, torna-se missão impossível a reinvenção da vida. Para que o mundo ainda não esteja dado – Aposto todos os lances nos dados que rodopiam no jogo errado. Para que o mundo ainda não esteja dado – Certos dados me indicam que não há indicação plausível na bula da minha vida. Na burla do meu dia. Para que o mundo ainda não esteja dado – dado o teu desespero, dou-te o remédio para a tua amargura douta: doe-se.
Ser um pouco mais envolvida nas decisões que me cabem. Um pouco mais procurada. Um pouco, só. Se de tudo fica um pouco, aonde está o que me resta? Mas a que tenho direito, se tenho sempre andado com as mãos abertas e espalmadas contra o céu pesado de chuva? Nem mesmo o temporal se detém nesse corpo já tão envelhecido, envilecido. Não vejo razões para continuar e acho que desde o início não houve razão. O instinto. A vontade. A sede. A insanidade. Eu, que canto com os modernistas o ódio ao burguês e ao funcionário exemplar, só queria o mínimo de ordem nessa alma já tão descabelada. Um pouquinho de amor. Que começasse com o amor-próprio, talvez. Ah, mas é tudo tão impossível: não tenho um pássaro na mão e os dois que voam são pontos esgarçados nesse céu cada vez mais escuro.
Toda essa inconstância entre ser oito ou oitenta, prosa ou poesia, me esconder debaixo da cama ou dar a cara a tapa: por que sempre essa indefinição entre os pólos opostos? Por que sempre essa indisposição, essa mania de listar as coisas que preciso jogar fora, as atitudes que devo tomar, os quilos que hei de perder? Por que sempre essa insistência em programar o despertador pras 6 se sei que vou dormir até às 9h e ainda assim levantar com preguiça? Por que esse mesmo livro na sala de espera do dentista? Vira a página, garota! Sai pra vida, decide de uma vez esse jogo sem propósito, aposta todas as fichas no amor novo, nos antigos amigos, nessa juventude pouco aproveitada! Vai lavar essa cara de sono e acorda pra uma rotina diferente!
Me perco entre as retas linhas de um diário cotidiano e o círculo anguloso dos teus abraços. Não me acho em mi, em ti, nos nós e desnós que a vida insistentemente trança, com tanta frouxidão. E tudo é mormaço e quietude perturbadora entre meus livros, meus discos e meus monólogos franzinos de toda hora. E tudo é cheiro de fruta estragada no cesto e textura incômoda de madeira velha que constitui minhas bases e meus pilares. Esqueleto sem resistência. Espera sem esperança e sem paciência. Sonhar é para poucos. Os meus papéis amontoam-se em uma irregularidade preocupante sobre a mesa de canto. Contas infinitamente sem resultado, rascunhos de planos perdidos, fotinhos velhas de uma época não-digital (quando mesmo?). Receitas dos remédios que nunca me curaram desta lacuna absurda. Absoluta. E a letra de um velho tango argentino. Gostinho doído de saudade. Se bem que, sinestesia por sinestesia, a minha falta é eminentemente tátil. O sentimento de ausência revela-se no oco dos braços, no oco da boca. Nas palmas espalmadas, sem falanges que as completem. No contato da planta do pé com o chão frio de um apenas apartamento. Dentre tantos outros. Saudade no travesseiro quente de choro e nos cabelos emaranhados – ninguém os alisa? Lisa, a vida que poderia ter sido.
Sobrancelha depilada, unha pintada de vermelho Ferrari, corpo equilibrado em saltos-agulha afiados. Bolsas recheadas de absorventes e gloss. Calças justas, barriga pra dentro e peito pra fora, um dois um dois. Às vezes cansa. Para Vinicius, toda mulher tem de ter um quê de Maria: feita para amar e para ser só perdão. Para Chico, mulherão é a ateniense. Noel sofre com a malícia feminina, e Caetano atalha: "Como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?". Anas e Amélias cantadas e encantadas, princesas de contos da carochinha e putas bem reais. Petrificadas, cristalizadas. Às vezes cansa. Somos muié pra mais di metro – apesar dos saltos-agulha e das sandálias plataforma. Mulheres finas – não obstante a eventual lasanha de domingo e o milk-shake a mais na lanchonete. Guerreiras – a luta contra as baratas e contra a tampa levantada do vaso continua. Antes de tudo, a combinação de X e X. Acima de todos, um pouco mais de nós mesmas. Apesar do cansaço.
Assumo o papel de filha com resignação e algum complexo freudiano, o de sobrinha e prima com a distância necessária, o de amiga com a alma aberta, o de proprietária com a mão fechada, o de agregada com o rosto baixo, o de leitora com algum amor. Piso no sujo palco do meu cotidiano, carregando todas as minhas máscaras nos meus braços enlaçados em cruz. Entre um ato e outro, às vezes posso me confundir e vestir o dominó errado. Aflita com uma distração tão humana, rasgo a fantasia – à unha – e procuro na minha bagagem confusa o rosto adequado para o momento já passado. Me vejo nua no palco, diante do público enfastiado com a farsa. Diante de mim, nua. Minha alma pesa – não me identifico com a imagem que se reflete na poça da maquiagem derretida.
Talvez a solução não esteja nesse laconismo/lacunismo diário. Sim, talvez haja uma resposta – mesmo para nós, questionadores anteriores à qualquer pergunta. E pode ser que não nos falte tanto. Somos nós que faltamos às sessões de terapia e às discussões de relacionamentos. O escapismo. O monstro que se gruda aos nossos pés e se incorpora à nossa sombra. Faltamos aos nossos encontros interiores, manipulando maniqueísticamente (e também maquinalmente, dada a nossa experiência no ato) os anjinhos e demônios que habitam em nós. Que eles não se encontrem publicamente é o nosso maior objetivo. Que algum dia essa parlenga leve a algum lugar, esperamos, enquanto esses pólos – opostos? - se digladiam em madrugadas insones. Enquanto isso, sobrevivemos. Às tragédias televisivas cotidianas e ao trágico cotidiano nosso de cada dia. Contudo, é preciso lembrar que a comédia é a tragédia mais um pouco. É preciso bom humor. Não basta trazer a cabeça à tona depois do mergulho. E se não for possível achar margem ou apoio, olhar com graça para o céu rosado de um último verão.

A palavra

Buscava entre todas, a melhor palavra. Aquela que exprimisse com uma exatidão milimétrica o seu desnorteamento diante do dicionário aberto. Não, que desnorteamento é rima fácil, substantivo com cara de advérbio, e no fim o que ele procurava não era o norte, mas o centro profundo, no qual incrustavam-se todas as rosas dos ventos. Os dedos calosos e empoeirados condenavam-no: como não adivinhar o seu vício no semblante sempre inquieto? As linhas da palma desenhavam-se de livro em livro, na procura já desesperada do termo signo perfeito. Sobreveio então a inevitável das gentes e ele se deparou não com a poesia da vida, mas com a ausência pura de sentidos, o não-signo: suspirou derradeiramente, arrependido de ter-se equivocado.

Umas cebolas

Ela o mirou com seus olhos extremamente sentimentais e sussurrou secretamente (tendo como fundo um remix da Anna dos Beatles): Estou apaixonada! Após todos os clichês de mau gosto, incluindo o vestido inabalavelmente branco(surpreendente, não?) e o coral das criancinhas carentes da paróquia de São Benedito gaguejando a Ana dosbesourinhos, ela se descobriu chorando com umas cebolas, três filhos piolhentos e um marido glutão. Calma ficou,porém, logo, pois tomou simultaneamente três cartelas do tranqüilizante mais recomendado entre os médicos de Cachoeirinha.

Pulsos em brasa

Ana Fabíola olhou estupefata para os próprios pulsos em brasa: a vida jorrava deles com um fulgor de chama. Desesperou-se: o instinto animal (que, no fim, é a única justificativa para todos nós) já rasgava com os dentes a bata esfuseantemente branca e a atava com uma força jamais vista àquela extremidade do corpo que não mais lhe pertencia. Era tarde para sentir dor e ela sabia que estava irrecuperavelmente talvez salva. Beijou Nossa Senhora das Dores de Todos Nós pendurada no cordãozinho da pulseira de um amarelo gasto e evanesceu.
Luisinho se enamorou muito jovem. A idade, ao invés de auxiliá-lo, visto que a mocidade é uma era rósea e platônica, profundamente o perturbou. Aos quatorze anos, já dedicava longuíssimos e melosos poemas à sua amada Pérola, jóia rara e preciosa (essa belíssima metáfora, aliás, foi retirada do último terceto do penúltimo soneto da série entitulada “Sonetos Perolados”). Enfim, consta também que sempre trazia uma rosa matinal no bolso do paletó que muito bem combinava com a calça engomada. Pérola, porém, devido talvez à diferença de idades (era seis anos mais vivida), ignorou o amor do rapaz e resolveu se dedicar à arte solitária da dança na boate “Night Fervor”.
Schuman chove na tarde vazia. De pensamentos, gestos, atos e desatinos. No teatro da vida, o break para o café. Nada mais merecido para essa dura tarefa da vida, quebrada e alquebrada. Partida de partes e partidas, fragmentos que se perdem em uma confusão míope. Só os acordes caindo em garoa neste coração seco. Por ora, não peço mais nada. Apenas pinço delicadamente a melodia (tão viva) e em seguida a armazeno no meu baú de lembranças e nostalgias. Eis uma caixinha de música criada, porém senhor de todo o meu desespero pagão.
Nunca em lugar algum: lugar-comum. A impossibilidade já se tornou clichê, dada a sua recorrência. Viver é muito perigoso? Eu já sei, apesar de seguir a filosofia do nada saber... Prefiro o Guimarães de “viver é tarefa de pouco proveito e muito desempenho”. Faz mais sentido pela sua ausência de significação. O sentido da vida? Talvez algum ponto perdido da rosa dos ventos. Só que venta muito por aqui também, e eu nunca sei precisar esse lugar, ainda que comum. Gira, gira mundo.
Uma semana de folga e nada feito, nem sequer começado. Devia de ter molhado as plantas tão sequinhas em cima da mesa, colocado a casa ordem, iniciado alguma iniciativa social ainda não iniciada, me inscrito em algum projeto, me projetado para a vida e para a morte. Nada feito. Uma semana e consegui apenas desfazer relacionamentos fundamentais e fundar relacionamentos absurdamente efêmeros em profundidade, mas talvez não em tempo (as aparências enganam, mas duram). Tô confusa. Tô carente. Tô triste comigo e com o mundo. Quero outra caixa de bombons. Ou uma garrafa de vinho. Hoje, porres são bem vindos. Amigos também. Quero colo.
Era uma vez uma menina que trocou o Reino Encantado pela moradia estudantil e a fada madrinha por madrinha nenhuma, pois a menina trocara também o medo de lobos e bruxas pelo pavor de ideologias e crenças alheias. Sem balaio de doces, roca de fiar e maçãs envenenadas, a menina só podia contar com suas palavras para tornar o próprio enredo um pouco menos tedioso. Mas seus termos e expressões eram tão apagados – reflexos falhos de um reflexo distante e de reflexões falhos – que a menina pôs-se a testar desesperadamente feitiçarias baratas de cunho vocabular. Infelizmente, nem o haxixe dos românticos a libertava da maldição do léxico pobre, sem crédito para viagens lingüísticas. Desprovida de ânimo para morrer dignamente na Lagoa Rodrigo de Freitas e para recomeçar elefantes drummondianos, a menina colocou um ponto final na pauta e transformou-se não em satélite brilhante ou estrela de um céu de macunaímas, mas em reles porém eficiente funcionária de ponto-e-expediente. E pôs-se a fábula em ata.
TPM me aflige, me revira, me liberta para os meus demônios. Ingratidão me magoa e fere dentro de mim a menininha que ainda quer transformar o mundo. Casa por limpar me joga diante da televisão e de pacotes de bolacha, por prazos indeterminados até a chegada de visitas ou de baratas. Música errada no momento certo me tira do sério. Pessoa certa no momento errado também. E vice versa. Mas no verso reverso dessa história, na contracapa que é contra a capa – e ainda assim busca alguma dialética -, o que resta é uma guria assustada, temerosa de relacionamentos humanos, ratazanas e contas pra pagar. Que paga seus pecados miúda e minguadamente, parcelas que excedem a vida e cotas de bondade possíveis para mais uma cabecinha aérea em um mundo de massificação descabida. Pensamentos voam longe... e todavia, a ilusão de estar nadando contra a corrente. Toda a vida, pseudo- elo partido de uma corrente inquebrantável. Absoluta.

PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2009
Seguir na linha tênue de cordas bambas cotidianas e fatídicas. O equilíbrio no fio tão raro de uma seda vagabunda. Sob os nossos pés, a vida que deveria ter sido e que não foi. E que não foi. Sobre as nossas cabecinhas distraídas, a estrela sempre esperada. Que nos seduz com seu brilho pagão e nos faz perder o rumo. Bamboleamos e caímos metros infinitos, com a fronte sorridente voltada para o alto. Irremediavelmente.
Fuga: Não a de Bach, mas a cotidiana e necessária para toda e qualquer permanência.
Vou rodopirar, loucamente girar pra chegar no lugar algum que ainda é algum lugar. Me safar num safári safado. Viajar pelos ares sem tapete de Aladim e contar unicamente com a lâmpada não tão maravilhosa das minhas idéias. Dos meus pensamentos soltos – presos ao destino de serem só fumaça se esvaindo em vão. No vão da vida, ou me encontro ou termino esse processo de perda de vez. Ou talvez não. Só tenho a certeza das minhas dúvidas. Mas nem tanto assim.
“Enquanto for um terço meu...”. Enquanto for um terço de mim. Enquanto for o meu meio de vida, de transporte e de comunicação (incluo aqui nossas horas de silêncio necessário e um ou outro monólogo perdido). Enquanto for meu inteiro, ainda que partido (e o que não é fragmento e memória nos dias que vão?). Enquanto for um quarto pouco para os nossos encontros em corpo e sonho. Enquanto for um quinto de paraíso e um sexto sentido que me oriente nos meus caminhos mal traçados e mal vividos. Enquanto for um sétimo sono, uma sétima vida, um sétimo pecado original. Enquanto for um terço e uma oração sussurrada no desespero. Enquanto rodarem os cristais baratos dentre meus dedos. Enquanto entoar cansada porém com alguma convicção minhas Ave, Marias. Enquanto houver uma mínima espera e um parco sopro de esperança. Enquanto torço e temo neste terço.
Que nessa farsa minha de cada dia, o teatro seja mágico. Porque o feijão-com-arroz da minha correria cotidiana tem de vir muito bem temperado. Porque de cima da pedra mais alta, para o céu basta um pulo. Porque quando minha tristeza é parte do dia, você vem, separador. Porque metade de mim é saudade da outra metade que se desencontrou. Porque é preciso perder as estribeiras, camarada. Porque todo mundo amarela uma hora, e horas há de oração. Porque o amar e o mar são inomináveis, indenomináveis. Porque infelicidade é questão de prefixo. Porque somos raros, e um tanto bem maiores.
Banho com sal grosso, toda semana – exfolia a pele e lava a alma, repondo alguma energia fundamental. Arroz com feijão, todo-o-dia, até como acompanhante da macarronada domingueira. Tragédia, toda noite, filtrada pela voz pasteurizada da apresentadora do telejornal. Absorvente, todo mês; absorção do que não desejo, toda hora. Porque muito pouco do que eu quero eu realmente tenho. Pastel de queijo e orégano, toda feira; Codinome Beija-Flor, todo mal-feito caso desfeito; a primavera vivaldiana, toda a vida. Mãos dadas e choro no ombro, nem todo amigo. Liberdade e encontro, nem todo orgasmo; epifania, nem todo apocalipse; compreensão, nem todo ouvido. Porque muito pouco do que eu tenho eu realmente quero.
Eros e Thanatos. Amor e morte caminham juntos. Que é o sexo? Um corpo se debatendo sobre outro. Que é a morte? Um corpo se debatendo solitário. A diferença é meramente numérica. Talvez, porém, na morte a solidão seja menos intensa e haja alguma espécie de encontro profundo, para além da superfície. Andando de mãos dadas, amor e violência. Violência é invasão – seja espacial, material ou metafísica. O amor é invasivo por princípio e nos torna inválidos por conseqüência. Inválidos para a vida e para o próprio amor, especialmente o próprio. O amor violento – pessoas se invadindo; diários, chaves e sexos compartilhados; o direito de ir e vir submetido a vontades ditatoriais; nosso corpo adestrado em função de um terceiro, de um quarto e de um quinto: a violência do amor que não é para sempre. A violência de um amor preenchido por lacunas de ódio na velhice inquieta – o amor cruelmente eterno.
A taça meio-cheia do chefe de repartição intriga o minguado funcionário de ponto-e-expediente, que equilibra na corda-bamba de seus ósseos dedos o copinho meio-vazio de café e resignação.
Às vezes, escrevo como que procurando um ponto de fuga. Quase todas as minhas personagens se matam ou deveriam fazê-lo. Pra mim, literatura não é confissão. Arma, talvez. Escudo também. Amo a vida - apesar do clichê. Gosto das árvores quando só restam o tronco e as flores vermelhas estalando - todas as folhas tornadas chão. Às vezes, teima uma única em meio à copa, de um verde digno da mais pura esperança. Não sei nadar e tenho paixão pela areia fugidia, gôsto de maresia no céu da boca, por cheiro e som de chuva. Seriados americanos e novelas das oito não resolvem minhas crises existenciais. Me sinto irremediavelmente velha e, às vezes, definitivamente morta. Acho que conheço até onde meus dedos alcançam - a mão espalmada contra o céu aberto. Ainda acredito nos valores de uma burguesia amoral e moralista - emprego estável, casamento, família. Sinto que me descobri profissionalmente – a tão fatídica vocação! - e não sei como lidar com isso, entretanto. Entre tantos impulsos mesquinhos para acumular casas, carros e fama. Preciso desesperadamente de música, todo o tempo. De fugas diárias e anti-horárias. De colo. De independência. Preciso de tudo e de todos - às vezes, quero abraçar o mundo. Costumo ser teimosa e mal e mal sei desistir - saio sempre com a alma machucada. Já passei anos sem chorar e já chorei inabalavelmente por um mês – inteiro - na ânsia de recuperar o tempo perdido. Eliminar o excesso de água e sal. Principalmente sal. Amei, fui amada, desamei, fui desamada - não necessariamente nessa ordem. Sempre platonicamente. Não sei lidar com meios-termos: pra mim, é oito ou oitenta, pingo nos is e preto no branco. Tenho medo da morte e das linhas da mão. Da maldade humana e menos metafísica, também. Às vezes, acordo com um bom humor inexplicável e contagiante. Passa logo. Tenho medo da felicidade extrema – prenuncia desgraça. Já me chamaram de liberal – um susto. No que depender de mim, o mundo está perdido. Falo em fragmentos, vivo espalhando as minhas partes e os meus incontáveis eus pelo chão, procurando refazer esse quebra-cabeças tão antigo: aqui, perna, aqui braço, aqui umbigo.O coração perto do fígado, manchado de bile. Sempre falta uma peça. Às vezes, acho que deve ser a alma gêmea. Às vezes, Deus. Geralmente, acredito que o sentido da vida é tentar – inutilmente! – suprir esse vazio. Ser tão miserável e abrigar todo um buraco negro em mim. Sou meio Macabéa, meio Capitu, meio Pagu. Meio Amélia. E o Bentinho bem que merecia o chifre que não teve. Prego a igualdade aos quatro cantos. Às vezes, sou feminista extrema. Odeio mulher. Com algumas, me acostumo. A sensação primeira é sempre da mais profunda raiva. Odeio homens. Ainda mais após um caso mal resolvido, mal vivido e mal terminado. Às vezes, queria a doce crença da missa de domingo e torcer pela mocinha chorosa da novela. Seria mais simples. Não sei lidar com relacionamentos humanos. Bichos também não me fascinam. Meus diálogos mais verdadeiros ocorrem em bibliotecas. Às vezes, esqueço datas. O meu aniversário torna-se a cada ano mais aguado. Já não acredito nas minhas tão velhas promessas de ano novo. Às vezes, dou o meu reino por uma mão que enlace a minha. Nem que seja por uma noite. Passo o dia procurando braços que me aninhem na madrugada das minhas insônias. Sou facilmente intoxicável - por álcool, Bach e Maiakóvski. Dependente extrema das minhas dependências. Às vezes, queria entrar em coma poético. Me vejo meio Fênix, meio gaiola. Talvez acredite no ceticismo. Em mim, indubitavelmente não. Às vezes, queria ser mais inteira. Que o meu tempo fosse o sempre e o meu chão, firme. Não viver tropeçando nas nuvens e nos meus infinitos “às vezes’’.
Sempre a oscilação entre bolsas recheadas de inutilidades e o caminhar ao vento, sem lenço ou documento. Sempre a teimosia em arrumar malas cinco minutos antes da partida. Sempre esse nomadismo entre o cá e o lá, sem chão que me defina. As travessias de lugar nenhum para nenhum lugar. E ainda sempre os caminhos frágeis, sem atalhos, direções, pontos de fuga e pontos de ônibus... destino incerto na linha da palma. Os meus pés me conduzindo – sempre – pelas veredas entre o oito e o oitenta, sem nunca optarem pelo bom senso. Nunca as decisões coerentes (ao menos nos momentos precisos). Nunca realizadas vontades além das infames. Nunca a alternativa correta assinalada, uma organização eficiente das estantes, a medida certa do sal no arroz, o vestido bonito para o encontro de era-uma-vez. Constante, apenas essa velha inconstância.

PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2009

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Trocar os móveis de lugar, colar panfletos pelas paredes e portas do apartamento, organizar a agenda e a vida: minha dose necessária e rotineira de distração e renovação. Com a cara e a coragem, mais o rosto exposto a tapa (mas nem tanto assim): e que venha o esmalte vermelho-ferrari nunca usado disfarçar a mão da criança e a mania nova de dormir com bichos de pelúcia ocultar a insônia da adulta; venham em conjunto as infindáveis listas e os velhos projetos de lugares a visitar, livros a ler, quilos a perder... Exorcizem-se a mente vazia (oficina do coisa-ruim) e a sensação pós-moderna (?) de vazio e incomunicabilidade (inclusive interior): ativem-se as atividades e os sonhos. É a hora de tirar o pó do quarto, varrer a poeira pra longe, lavar a roupa suja e colocar tudo em pratos limpos... ao menos por um instante... O agora ou nunca pra aprender de vez a outra língua e revigorar o conhecimento da materna; tempo chegado de ser uma boa moça, apesar da indocilidade contínua; o momento de criar um blog, arrumar o armário, trocar a mochila em farrapos, sair pra vida, me entregar de vez à paixão recente e aos amigos antigos. Ao menos durante esse resto de noite, carpe diem.