quinta-feira, 24 de maio de 2007
Me perco entre as retas linhas de um diário cotidiano e o círculo anguloso dos teus abraços. Não me acho em mi, em ti, nos nós e desnós que a vida insistentemente trança, com tanta frouxidão. E tudo é mormaço e quietude perturbadora entre meus livros, meus discos e meus monólogos franzinos de toda hora. E tudo é cheiro de fruta estragada no cesto e textura incômoda de madeira velha que constitui minhas bases e meus pilares. Esqueleto sem resistência. Espera sem esperança e sem paciência. Sonhar é para poucos. Os meus papéis amontoam-se em uma irregularidade preocupante sobre a mesa de canto. Contas infinitamente sem resultado, rascunhos de planos perdidos, fotinhos velhas de uma época não-digital (quando mesmo?). Receitas dos remédios que nunca me curaram desta lacuna absurda. Absoluta. E a letra de um velho tango argentino. Gostinho doído de saudade. Se bem que, sinestesia por sinestesia, a minha falta é eminentemente tátil. O sentimento de ausência revela-se no oco dos braços, no oco da boca. Nas palmas espalmadas, sem falanges que as completem. No contato da planta do pé com o chão frio de um apenas apartamento. Dentre tantos outros. Saudade no travesseiro quente de choro e nos cabelos emaranhados – ninguém os alisa? Lisa, a vida que poderia ter sido.
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