sexta-feira, 28 de agosto de 2009

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Eu sou o que escrevo: minto todo o tempo. Não só de mentiras meu texto se tece: é ocultamento e exagero, fábula a liberdade. Só sou livre escrevendo, presa às minhas inverdades.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

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Dia de limpar os armários, revirar gavetas, separar o pouco que é meu do tanto que já é irremediavelmente perdido. Processo doloroso, é certo, mas cada vez menos: amadurecer e ver que nada faz realmente sentido tem suas vantagens. Cortar os laços deixa de ser tragédia sofocliana, olhos furados e um longo caminho de dor. Não: a graça está é no novo, e quem me dera viver só de começos. Trocar o amor que já se empoeirou pelas paixões sublimes, toques e lábios e o "eu te amo" pronunciado com tanto fervor e certeza. Fênix, quem me dera.

PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011

terça-feira, 25 de agosto de 2009

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É um silêncio que chega baixinho, confundindo-se com o som da chuva na janela. É o olhar além da vidraça e não enxergar mais que um dia cinzento. É um mergulhar em si sem encontrar em que se agarrar, pedra lisa apontando o abismo. É o se apoiar em qualquer amor, ínfimo que seja, e não aceitar roteiros que não incluam a ambos – ombro no ombro, solidão apoiando solidão. É o buscar outros rumos, novas metas, uma linha de destino não descoberta na palma: e querer, tanto, apenas uma vez, ser amada com o ardor dos devotos.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

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Não me ofereça a passagem se quer olhar meu rebolado; não me venha com flores metaforizando sexo e nem com esse olhar insistente de quem escolhe o melhor pedaço de carne no açougue. Eu não sou flor que se cheire nem mulher à moda antiga: não lavo, não passo, não cozinho - muito menos para os outros. Trabalho mais que você, ganho menos, mas os tempos mudarão. Enquanto isso, esconda seu anacronismo no meio das cuecas (que você mesmo lavará) porque eu decido quem vai para a minha cama, por quanto tempo e em troca do quê.

PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

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E se eu fosse mulher em 1900? Meus arroubos românticos, ora vejam vocês, não seriam anacrônicos: passear pelas ruas européias de São Paulo, o vestido ainda bufante, o melhor do meu recato escondido no decote tímido. Os homens seriam todos iguais, canalhice atemporal. Nos poupariam do trabalho em repartições de escritório, exigindo da doce e submissa mulher apenas os serviços domésticos e favores sexuais. Poucas alterações nas relações entre os sexos, visto que a libertação da mulher ainda é utopia e a igualdade, frágil sonho arquivado entre as muitas masculinas burocracias de Estado.

PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011

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“Não gosto de gente amarga”, sua reclamação. E de que me adiantam meu sorriso doce, minha oferenda em mel, minha entrega de néctar roubado ao Olimpo diante da indiferença cotidiana, dos pequenos atrasos, das respostas esquecidas entre outras tantas tarefas cotidianas – mais relevantes, de última ordem, ela ficaria magoada... mas você... você entende, não? O açúcar se confunde com o gosto de amor empoeirado, a naftalina no fundo da gaveta: Desculpe-me o travo amargo na boca.

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São esses sonhos que revelam a parte que não queríamos dar a conhecer: Freud que se escondesse com seu falo machista, os complexos, e essa mania de nos definir como seres em permanente busca. Todos os amores em um mesmo barco: não é pedir pelo naufrágio? Dessa história já sei o final, conheço o ranço amargo na boca, as desculpas esfarrapadas, a masculina necessidade de ser infiel. Por que o sonho, então? Não quero alegorias, cansei das representações e de doar a minha alma a quem tem o espírito inconstante dos marinheiros. (13/08/09)