terça-feira, 29 de maio de 2007

Ave, Maria

Então era isso. Pôs-se a arrumar a bolsa de tiracolo – os espelhinhos partidos, o batom já no fim – não, não ficaria nada com ele. Com seu orgulho de dama da noite desprezada, contou o dinheiro (sempre cobrara mais barato dele, o cretino) e bateu a porta com um pouco de força, apenas – ele voltara a dormir. No bar quente e úmido, de paredes manchadas, um bêbado roliço e vermelho a olhava menos por admiração que por espanto. As unhas roídas até a carne viva, como não notar? Os olhos lambuzados de rímel barato, o lábio escarlate desbotado, a saia desfiando? Engoliu a cachaça com uma sede infinita e entoou sua “Ave, Maria” num quase sussurro.

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