sexta-feira, 3 de agosto de 2007

“Eu te amo, eu te amo, eu te amo...” A frase, pequena, em toda a sua revelação e quase indelicadeza, se repetia eternamente: círculo vicioso, labirinto de espelhos, progressão geométrica ou apenas humana falsidade. Bocas apertadas em súbita explosão; labiozinhos contornados de incipiente buço dos colegiais em transe; bocarrões de glutão que a tudo desejam tragar e engolir; ah, eram tantos maxilares e cordas vocais e olhos e pernas e cotovelos e nucas e bobas mãos espertas demais a insistirem sempre e ainda sempre no mesmo exercício... Cansara. Delicadamente foi suprimindo o verbo de cada dicionário (as visitas às bibliotecas e a tesoura escondida no avental), desfazendo cada lenço bordado, alterando cada filme, música e epitáfio. Em pouco tempo, por falta de uso, extingüiu-se o termo da linguagem corrente: de clichê metamorfoseou-se arcaísmo, graças a uma empreitada dita por todos impossível. Mas como profetizara já o poeta, quem tem asas voa... e não há muro que detenha um objetivo levado com tamanho amor.

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