quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Se o mundo é uma piada de Deus, o cara tem um humor infernal.

O dito pelo interdito

Já dizia o velho Dito:
mais vale um sonho na mão
que uma realidade em vão;
quem se esmera
sempre dança;
fechem-se as portas
da esperança!

Haja a barriga
sem o rei;
cara-de-pau
com madeira de lei;
porque em terra de cego,
quem tem olho é rei;
quem não tem, é real.
E se viemos do nada
é pra irmos pro tudo no final.

Por linhas tortas lê-se a vida;
coloquemos o dedo na ferida.
Não aceitemos o presente
por falta de futuro;
a pseudo-liberdade pela aparente
falta de muro;
a compra a prazo que mente
falta de juro.

De mãos dadas, meu irmão.
Meu irmão, meu irmão:
porque a união
faz o açúcar.
Eu espalhei flores por toda a casa. Apenas plástico barato, mas colorem (muito pouco, eu sei) essa rotina cinza, sem sentido, por que ainda? Eu resolvi aprender de novo tudo do que desisti há tanto tempo. Os dedos tropeçam nas linhas dos planos a serem refeitos, mas a farsa da esperança pode ser tão sincera! Contudo, não o é. Eu liguei para a minha agenda telefônica inteira: atrapalhei abraços sexuais, interrompi propostas de emprego já para sempre perdidas e alcancei uma ou duas conversas ocas. Para quê? Eu retomei meus livros, minha cafeína e os filmes antigos da sessão televisiva de domingo: às vezes, nada mais faz tanto sentido. Às vezes se torna insuportavelmente dolorido. Ainda assim, às vezes passa.
Sempre em segundo plano. Eu só queria ser a pessoa mais importante da vida de alguém. Talvez da minha. Largar o vício do empurrão inicial, romper os cordões umbilicais e as cordas bambas desses afetos todos. Não-correspondidos.
Amor pluri-significativo
Em quaisquer idades e circunstâncias:
Eu te amo porque te amo.
- É simples como a chama aprisionada em cristal
e o resfolegar aflito de um náufrago.
Já não há escolha e o amor é fato
Ardendo antigo como as fotos empoeiradas
E as orquídeas mortas dos vasos.
Benção cabal, sino sagrado ecoando em uma madrugada vazia
Álacres almas aladas,
O que nos resta é a essência.

O amor perdeu a sua casca inútil
e se apresenta em toda a sua corrosiva doçura.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Você andou me escondendo coisas demais... Poxa, como é que você se apresenta assim, mal dizendo o nome, me ocultando seu medo de chuva, seus vinte e poucos anos, sua cor favorita, sua predileção por Beethoven? Como você aparece do nada e muda tudo? Por causa de você tive de trocar os móveis da sala de lugar, colorir meu quarto, jogar fora minha orquídea de plástico e comprar um vasinho de violetas. Vou te falar: você me dá um belo de um trabalho. Por você coloco estantes e cabelos em ordem a fim de causar alguma boa impressão, uma memoriazinha que seja, você já não se lembra de mim? Eu sou aquela umazinha que te segue pelos becos, que rouba seus diário e que sonha em te seqüestrar. Nenhuma recordação? Mas olha aqui, eu estampei sua foto na minha camisa, tatuei seu nome na testa, eu pichei poemas de Florbela no seu muro. Nada ainda? Mas como, se quem se esconde é você? Eu me mostro, me declaro, me dispo, saio cantando quiçá nossa música na chuva: eu só quero que você siga/ para onde quiser/ que eu não vou ficar muito atrás... Ah, você já vai? Não é cedo ou tarde demais? Nada ainda? Não, não me incomodo: pode ir. Quem sabe em outra esquina.
Minhas meias têm buracos. Meu colchão não é anti-ácaro. Minhas blusas têm manchas de tempo e de suor. Meu varal é improvisado. Minha pia sempre tem louça. Meu cabelo sempre tem caspa. Minhas horas sempre têm pressa. Meus possessivos nunca têm dono ou esperança.
ou
Minha vida não tem meios-buracos. Minhas horas têm manchas de suor. Meu cabelo não é anti-ácaro. Meu colchão tem pressa. Minha pia ainda tem louça. Meu tempo seca no varal. Improviso possessivos. Minhas blusas não têm dono. Minha caspa não tem esperança.


Publicado no Livro da Tribo 2012

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

“Tristeza não tem fim... felicidade, sim.”

O espelho não lhe dizia muita coisa. Sem eufemismos e a hipocrisia das conversas de fila para o emprego – não dizia. Com a princesinha pálida tudo era tão simples! Não, não precisava ser a mais bela – já se acostumara a passar anônima dentre a multidão. Além de que, ultimamente, até via certa graça no seu ligeiro estrabismo. No fundo e antes de todas as coisas, seu único desejo era uma companhia, qualquer uma. Escutar um bom-dia resmungado entre um bocejo e outro. Raclamar da cueca pendurada na torneira do chuveiro. Receber um cartão que fosse a cada novo inverno completado. Olhar seu reflexo e visualizar além um vulto esfumaçado com seu café frio a meditar, semblante rígido, sobre o próximo sorteio da Tele Sena.
“Eu te amo, eu te amo, eu te amo...” A frase, pequena, em toda a sua revelação e quase indelicadeza, se repetia eternamente: círculo vicioso, labirinto de espelhos, progressão geométrica ou apenas humana falsidade. Bocas apertadas em súbita explosão; labiozinhos contornados de incipiente buço dos colegiais em transe; bocarrões de glutão que a tudo desejam tragar e engolir; ah, eram tantos maxilares e cordas vocais e olhos e pernas e cotovelos e nucas e bobas mãos espertas demais a insistirem sempre e ainda sempre no mesmo exercício... Cansara. Delicadamente foi suprimindo o verbo de cada dicionário (as visitas às bibliotecas e a tesoura escondida no avental), desfazendo cada lenço bordado, alterando cada filme, música e epitáfio. Em pouco tempo, por falta de uso, extingüiu-se o termo da linguagem corrente: de clichê metamorfoseou-se arcaísmo, graças a uma empreitada dita por todos impossível. Mas como profetizara já o poeta, quem tem asas voa... e não há muro que detenha um objetivo levado com tamanho amor.