terça-feira, 19 de junho de 2007

“No lo dudes, hermano: abre todas las puertas.
Aunque nada haya dentro.”
(Luis Alberto de Cuenca)

Esqueci a chave da porta de entrada. Suspeitam de mim se busco encontrar um caminho pelos fundos. Pular a janela fere meus princípios básicos de seriedade e sedentarismo. Já não acredito em Natal para me aventurar pela chaminé. Não acredito já no homem naturalmente bom de Rousseau para bater à porta do vizinho implorando ajuda. Nunca brinquei de fugitiva para tentar um túnel. Não consigo empregar o grampo de cabelo com outra finalidade que não seja a de vaidadezinha feminina. Métodos mais bruscos, como o arrombamento da porta, não encontram forças em mim – nem a de vontade, nem a braçal. Apelo para São Longuinho e para um quarto barato de hotel. O primeiro não me dá ouvidos; o segundo me oferece um colchão cravejado de percevejos. Amanhã corro atrás de um chaveiro. E de algum verdadeiro amigo, também. Cansei das minhas noites vazias – em casa ou fora dela.
“E é sempre a chuva nos desertos sem guarda-chuva(...)”

Ela esperava. Atenta. Paciente. Na sala vazia de móveis e de cores, o silêncio denso. Apenas sua respiração e as engrenagens do eterno relógio. Um fio de voz – talvez um suspiro angustiado, nada é certo – às vezes emanava de sua figura, sempre mais curvada pelo tempo: uma corcunda de dor e expectativa. E nada. Nada. Nem um sopro de vento favorável, nem a mão do Criador estendida em ajuda e caridade. Contudo, ainda assim, a espera. Acreditava no Impossível: era o que bastava.

“ O mais é barro, sem esperança de escultura.”
(Carlos Drummond de Andrade)