quinta-feira, 24 de maio de 2007

Às vezes, escrevo como que procurando um ponto de fuga. Quase todas as minhas personagens se matam ou deveriam fazê-lo. Pra mim, literatura não é confissão. Arma, talvez. Escudo também. Amo a vida - apesar do clichê. Gosto das árvores quando só restam o tronco e as flores vermelhas estalando - todas as folhas tornadas chão. Às vezes, teima uma única em meio à copa, de um verde digno da mais pura esperança. Não sei nadar e tenho paixão pela areia fugidia, gôsto de maresia no céu da boca, por cheiro e som de chuva. Seriados americanos e novelas das oito não resolvem minhas crises existenciais. Me sinto irremediavelmente velha e, às vezes, definitivamente morta. Acho que conheço até onde meus dedos alcançam - a mão espalmada contra o céu aberto. Ainda acredito nos valores de uma burguesia amoral e moralista - emprego estável, casamento, família. Sinto que me descobri profissionalmente – a tão fatídica vocação! - e não sei como lidar com isso, entretanto. Entre tantos impulsos mesquinhos para acumular casas, carros e fama. Preciso desesperadamente de música, todo o tempo. De fugas diárias e anti-horárias. De colo. De independência. Preciso de tudo e de todos - às vezes, quero abraçar o mundo. Costumo ser teimosa e mal e mal sei desistir - saio sempre com a alma machucada. Já passei anos sem chorar e já chorei inabalavelmente por um mês – inteiro - na ânsia de recuperar o tempo perdido. Eliminar o excesso de água e sal. Principalmente sal. Amei, fui amada, desamei, fui desamada - não necessariamente nessa ordem. Sempre platonicamente. Não sei lidar com meios-termos: pra mim, é oito ou oitenta, pingo nos is e preto no branco. Tenho medo da morte e das linhas da mão. Da maldade humana e menos metafísica, também. Às vezes, acordo com um bom humor inexplicável e contagiante. Passa logo. Tenho medo da felicidade extrema – prenuncia desgraça. Já me chamaram de liberal – um susto. No que depender de mim, o mundo está perdido. Falo em fragmentos, vivo espalhando as minhas partes e os meus incontáveis eus pelo chão, procurando refazer esse quebra-cabeças tão antigo: aqui, perna, aqui braço, aqui umbigo.O coração perto do fígado, manchado de bile. Sempre falta uma peça. Às vezes, acho que deve ser a alma gêmea. Às vezes, Deus. Geralmente, acredito que o sentido da vida é tentar – inutilmente! – suprir esse vazio. Ser tão miserável e abrigar todo um buraco negro em mim. Sou meio Macabéa, meio Capitu, meio Pagu. Meio Amélia. E o Bentinho bem que merecia o chifre que não teve. Prego a igualdade aos quatro cantos. Às vezes, sou feminista extrema. Odeio mulher. Com algumas, me acostumo. A sensação primeira é sempre da mais profunda raiva. Odeio homens. Ainda mais após um caso mal resolvido, mal vivido e mal terminado. Às vezes, queria a doce crença da missa de domingo e torcer pela mocinha chorosa da novela. Seria mais simples. Não sei lidar com relacionamentos humanos. Bichos também não me fascinam. Meus diálogos mais verdadeiros ocorrem em bibliotecas. Às vezes, esqueço datas. O meu aniversário torna-se a cada ano mais aguado. Já não acredito nas minhas tão velhas promessas de ano novo. Às vezes, dou o meu reino por uma mão que enlace a minha. Nem que seja por uma noite. Passo o dia procurando braços que me aninhem na madrugada das minhas insônias. Sou facilmente intoxicável - por álcool, Bach e Maiakóvski. Dependente extrema das minhas dependências. Às vezes, queria entrar em coma poético. Me vejo meio Fênix, meio gaiola. Talvez acredite no ceticismo. Em mim, indubitavelmente não. Às vezes, queria ser mais inteira. Que o meu tempo fosse o sempre e o meu chão, firme. Não viver tropeçando nas nuvens e nos meus infinitos “às vezes’’.

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