segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
A partir de um relógio de pulso, de um botão de camisa, de um lençol azul tão claro e de uma ou outra caixa espalhada pelos cantos - completando com suas arestas a parede oca - ela reconstruiu a sua história a dois, quando ela também era ele e versa-vice, ambos em um ato e uma vida, como mandam os preceitos, a sagrada tradição e a paixão mais louca e pagã de que já houve notícia. Sua boca florira em estrelas líquidas ao primeiro encontro - e desde então soube. O dia-a-dia, construído aos poucos contudo intensamente, por talvez milagre não se enquadrara na rotina do beijo com gosto de café, beijo com gosto de feijão e cama dividida, porém não compartilhada. E agora mais nada. A porta se cerrara, suave, e ainda pode ver o contorno dele esvaído a seguir alguma trilha bêbada, da qual não mais retornaria. Sentia seu peito, após a alheia ida sem vinda, não além de caixa toráxica - vazio, vazio. E ainda assim, tanta dor.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Macabéa XXI
Ela foi se encolhendo, tão pequenina, se encurvando, tão frágil, diminuindo, tão mísera. À sua frente, ao seu lado, todos Gullivers, quando não muitos Golias em fúria. Sobre seus pés, iam se derramando, iam se quebrando, tudo o que tocava virava catástrofe e revirava tragédia. Peças tão pequeninas ou ainda mais pequeninas que ela própria (e não é que enfim descobria alguma grandeza?) se estilhaçavam e desabavam, seus pés cobertos já do pó que lhe queria tragar ou quem sabe não, ela, a tão pouca-coisa, era quase indiferente. E foi envelhecendo, e foi enruguecendo, e foi entristecendo, e desejando tanto ser um dia, quem sabe após o fim de tudo, alguma pouca coisa. Coisa alguma. Mas a vida sempre aponta para uma qualquer incandescência mesmo nos infinitos areais de gelo e calafrios. E ela amou a si própria com tamanho ardor que reverberou em estrela ascendente alguns segundos antes do carro, da dor e do fim.
quinta-feira, 17 de janeiro de 2008
terça-feira, 8 de janeiro de 2008
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