“Haja hoje para tanto ontem.”
Tão pouco espaço na minha bagagem: e ainda a irritante mania de preparar a mala com a carona já buzinando na porta. Levo na bolsa os conselhos da mãe, os medos do pai; as expectativas e as convenções da parentela toda; as esperanças dos amigos, uma coleção de casos mal-resolvidos, as anotações da aula de sintaxe e uma canção da Marisa. Resta uma lacuna ou outra na mochila, que ocupo com balas de menta e o dinheiro (sempre contado, minguado) da passagem. É hora de ir. E o meu maior desejo é deixar esses pacotes todos na primeira esquina, descalçar os sapatos e seguir de mãos abanando, sem lenço, documento e guarda-chuva: que venha a garoa, o imprevisto e a liberdade.
PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2009
quarta-feira, 25 de julho de 2007
Caí do 20º andar, escorreguei do andaime, o elevador despencou, distraí o passo em um poça infinita de lama... seja em ideologias baratas ou em buracos negros, eu estou sempre caindo. Escorrego nas minha próprias mentiras e despenco todas as vezes em que, tentando ser neutra, vou para cima do muro. A cada vez que levanto do chão e sacudo a poeira, já é esperando pelo próximo tombo: tempo virá ainda do equilíbrio perfeito nas cordas bambas do meu dia-a-dia. Por enquanto, vou seguindo, mesmo que o caminho me espere com uma arapuca a cada esquina e que minha queda não sirva sequer para atrapalhar o tráfico, como a do construtor do Chico. O aprendizado da dor, a dor do aprendizado. A cada manhã, um recomeço.
sexta-feira, 13 de julho de 2007
“Vamos começar/ colocando um ponto final”.
(Paulo Moska)
A idéia do eterno recomeço, a cada fim de ano, a cada fim de semana, a cada sol poente, me cansa, me enfastia e me esperança. Apesar do conflito de não ser deveras o que planejei ser, o que seria de mim (de nós), sem a permissão divina de a todo instante passar a vida a limpo? Sei que o papel em branco da versão definitiva é já rascunho: depois de um certo tempo, aprende-se a lidar com o fato de o ideal vir sempre com os pés sujos de lama. Uma vida nova me espera e me espreita a cada esquina, soprando seu mudo convite. Mas a amnésia ainda não me atingiu em cheio com seu vaso de flores caído do último andar: manchando o meu lençol mais alvo do enxoval para celebrar esse encontro tão esperado entre minhas metades desiguais, as nódoas dos vícios do hábito e da perversão.
Ponto. Qualquer passo em direção ao novo pressupõe o retrocesso. Somos caranguejinhos a povoar as palmas de algum deus perdido: postar-se à frente, seguir em linha reta visando a glória é fantasia hollywoodiana. Sendo assim, comecemos já do ponto final: sem pausas para vírgulas parágrafos interrogações. Especialmente sem espaço (os dois dedinhos da aula de português viraram tecla – e uma só) para os parágrafos, que eu tenho medo da lacuna e dos vazios. E ponto.
“Pelo menos já é um sinal/ de que tudo na vida tem fim”.
(Paulo Moska)
(Paulo Moska)
A idéia do eterno recomeço, a cada fim de ano, a cada fim de semana, a cada sol poente, me cansa, me enfastia e me esperança. Apesar do conflito de não ser deveras o que planejei ser, o que seria de mim (de nós), sem a permissão divina de a todo instante passar a vida a limpo? Sei que o papel em branco da versão definitiva é já rascunho: depois de um certo tempo, aprende-se a lidar com o fato de o ideal vir sempre com os pés sujos de lama. Uma vida nova me espera e me espreita a cada esquina, soprando seu mudo convite. Mas a amnésia ainda não me atingiu em cheio com seu vaso de flores caído do último andar: manchando o meu lençol mais alvo do enxoval para celebrar esse encontro tão esperado entre minhas metades desiguais, as nódoas dos vícios do hábito e da perversão.
Ponto. Qualquer passo em direção ao novo pressupõe o retrocesso. Somos caranguejinhos a povoar as palmas de algum deus perdido: postar-se à frente, seguir em linha reta visando a glória é fantasia hollywoodiana. Sendo assim, comecemos já do ponto final: sem pausas para vírgulas parágrafos interrogações. Especialmente sem espaço (os dois dedinhos da aula de português viraram tecla – e uma só) para os parágrafos, que eu tenho medo da lacuna e dos vazios. E ponto.
“Pelo menos já é um sinal/ de que tudo na vida tem fim”.
(Paulo Moska)
sexta-feira, 6 de julho de 2007
O meu tema preferido é o tempo. O tempo que não pára, que não pensa antes de dobrar a esquina. O tempo de semear e o de colher, e a sempre longa espera. Esse tempo frio, de um céu sem sol e sem nuvens – nem um alento, nem um amigo. Mas eu sinto frio o tempo inteiro – não se incomode, fique com seu agasalho. Apenas me conte um pouco sobre o seu tempo de vida: o de menino, o adolescer. Me faça rir entoando aquela canção boba sobre jardins proibidos e rosas invioláveis. Olhe para mim: gargalhei tanto que me esquentei toda, sou capaz de pular naquele chafariz, não acredita? Como foi o seu tempo de banho em chafariz e nadar escondido no córrego do bairro? Sabe, eu gosto tanto de água... já me disseram que ela simboliza o tempo com o seu eterno deslizar, e que uma vez dentro de um rio se perde algo de essencial, mas eu só acredito no que vejo: gelo, garrafas Lindóia e vapor que solto pela boca em dias assim gelados. Agora me fale mais, sobre qualquer assunto, sob qualquer condição. Preciso tanto de um amigo... de um que não vá embora. Pra onde você vai? Nepal, bordel, outra rodoviária? Me leva com você? Prometo não aborrecer, eu só quero uma presença que não se esvazie. Clepsidra... o nome consegue ser ainda mais bonito que toda a beleza da idéia de um relógio de água. Imagina só... Já ouviu falar em banho espiritual? Hoje tem gente que faz de banho de loja lavagem moral. Cada um se salva como pode, não é? Mas não quero falar sobre o hoje, que o tempo é curto e o meu anda tão grávido de amanhãs... Seu ônibus chegou? Como, se ainda tenho de falar? Qual é mesmo o seu nome, o seu Deus, você acredita em biogenética? O que você faz da vida e com ela? Você já quis morrer? Não, eu entendo, mas não preciso das respostas, apenas das perguntas... E além disso, você tem um semblante tão expressivo, ele fala por mil silêncios. Pode ir, eu fico por aqui mesmo, esperando pelo meu tempo, o de partir. Boa viagem.
“E a alegria cedeu lugar ao tédio vulgar da vida cotidiana e ao sentimento de uma perda irreparável.”
(Anton P. Tchekhov)
A perda e o perdão extraviado. Não sei me absolver de nenhuma das 16 acepções dicionarizadas do verbo dos perdedores. Seja o ônibus, a tarrachinha do brinco, o lugar ou o amigo amado... a culpa é dolorosamente minha. Por mais que insista no sorriso social diante do “Tudo bem?” cotidiano... por mais que diga que cheguei a tempo, que comprei um brinco com gancho, que arranjei outro... por mais que brigue para sempre com São Longuinho – até a próxima vez em que me trancar novamente dentro de casa... não, não está nada bem. Na verdade, não agüento mais espalhar migalhas pros pássaros toda vez que tento achar o caminho de volta. Quero me livrar da sina de Pequeno Polegar e de Alice no labirinto dos espelhos. Pra ser sincera mesmo (posso?), ser ou ficar privada de; cessar de ter ou deixar de sentir; sofrer a perda, o prejuízo de; não aproveitar; ter mau êxito em e as outras onze acepções do verbete já andaram por tempo demais sapateando sobre os meus projetos de vida. Cansei de entoar a “Psicologia de um vencido” como hino...eu quero as batatas do Quincas Borba! Eu quero ser mais que uma Macabéa nessa cidade fria! Eu quero as minhas tarrachinhas de volta! Ah, São Longuinho... me ajude a me encontrar que te darei três pulos.
“Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.”
(Carlos Drummond de Andrade)
(Anton P. Tchekhov)
A perda e o perdão extraviado. Não sei me absolver de nenhuma das 16 acepções dicionarizadas do verbo dos perdedores. Seja o ônibus, a tarrachinha do brinco, o lugar ou o amigo amado... a culpa é dolorosamente minha. Por mais que insista no sorriso social diante do “Tudo bem?” cotidiano... por mais que diga que cheguei a tempo, que comprei um brinco com gancho, que arranjei outro... por mais que brigue para sempre com São Longuinho – até a próxima vez em que me trancar novamente dentro de casa... não, não está nada bem. Na verdade, não agüento mais espalhar migalhas pros pássaros toda vez que tento achar o caminho de volta. Quero me livrar da sina de Pequeno Polegar e de Alice no labirinto dos espelhos. Pra ser sincera mesmo (posso?), ser ou ficar privada de; cessar de ter ou deixar de sentir; sofrer a perda, o prejuízo de; não aproveitar; ter mau êxito em e as outras onze acepções do verbete já andaram por tempo demais sapateando sobre os meus projetos de vida. Cansei de entoar a “Psicologia de um vencido” como hino...eu quero as batatas do Quincas Borba! Eu quero ser mais que uma Macabéa nessa cidade fria! Eu quero as minhas tarrachinhas de volta! Ah, São Longuinho... me ajude a me encontrar que te darei três pulos.
“Perdi o bonde e a esperança.
Volto pálido para casa.”
(Carlos Drummond de Andrade)
Enquanto espero a água do chá ferver para acalentar mais uma madrugada, tento um qualquer assunto para rabiscar aqui. São minhas pseudo-pretensões literárias em ação e a busca por uma disciplina mínima: ao menos uma linha por dia. Vamos lá, Carina: conte sobre as suas paixões novas e a insistência em cometer os erros velhos; pode falar sobre essa sua incapacidade brutal em seguir qualquer ordem na rotina; sobre essa sua inconstância não obstante a permanente sensação de fracasso. Isso, menina, vamos lá: nos relate a sua impotência. Queremos os detalhes mais sórdidos: quantas vezes você negou ajuda por preguiça? De quem você fala mal pelas costas? Quem você bajula pelo status? Qual é o seu preço? E o seu ponto fraco? Desabafe, sim, pode chorar. Se descabele, se desespere, que faz bem à saúde. Aliás, que saúde? Você realmente pensa que essas caminhadas matinais e incrivelmente esporádicas são suficientes para curar a sua cólica, a sua gripe, o seu mais novo vício por cafeína? Chore, Carina, chore. Não há mesmo muito remédio para você, menina. Derrame todas essas lágrimas sobre o teclado e erga a taça dos vencedores que escrevem ao menos uma linha diária. Parabéns, você conseguiu. O prêmio é seu. Agora vai tomar de vez esse chá e dormir: você merece.
Hoje não estou com ânimo para trocadilhos. Guardo minhas infâmias para a próxima oportunidade. Hoje Deus que me livre das literaturas. Deixo a poesia da vida para quem sabe lidar com ela. Dispenso os lirismos e o pôr-do-sol memorável: quero só mais um dia de café amargo, escritório fechado, marmita fria e conversas formais pelo telefone. Não quero saber de realidade que não seja a mesquinha e cotidiana: ao menos por hoje. Um trabalhozinho vulgar pelo salário medíocre, amizades de corredor e um cinema ao fim do mês: mais nada. Saber que posso mais dói muito. Hoje aposento minha camiseta do Che e os meus cds do Chico. Cansei de lutar pela paz que nunca alcanço. Hoje, quero só o meu casulo... e que se exploda o mundo.
Publicado parcialmente no Livro da Tribo 2012
Publicado parcialmente no Livro da Tribo 2012
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