quinta-feira, 24 de maio de 2007

Era uma vez uma menina que trocou o Reino Encantado pela moradia estudantil e a fada madrinha por madrinha nenhuma, pois a menina trocara também o medo de lobos e bruxas pelo pavor de ideologias e crenças alheias. Sem balaio de doces, roca de fiar e maçãs envenenadas, a menina só podia contar com suas palavras para tornar o próprio enredo um pouco menos tedioso. Mas seus termos e expressões eram tão apagados – reflexos falhos de um reflexo distante e de reflexões falhos – que a menina pôs-se a testar desesperadamente feitiçarias baratas de cunho vocabular. Infelizmente, nem o haxixe dos românticos a libertava da maldição do léxico pobre, sem crédito para viagens lingüísticas. Desprovida de ânimo para morrer dignamente na Lagoa Rodrigo de Freitas e para recomeçar elefantes drummondianos, a menina colocou um ponto final na pauta e transformou-se não em satélite brilhante ou estrela de um céu de macunaímas, mas em reles porém eficiente funcionária de ponto-e-expediente. E pôs-se a fábula em ata.

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