sexta-feira, 24 de setembro de 2010
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A inocência é um peso, que arrasto sob o vestido florido, salpicado de flores e mágoas. Quem me dera deixá-la deslizar, penhasco abaixo, com toda sua pureza e lealdade. Contudo, ainda não. A vida é longa e preciso dessa leveza que me sustente. Que me complete. Prefiro acreditar em fidelidades integrais, em amores sãos, em amizades incorruptíveis - aos poucos, a vida me ensina as imperfeições, me aponta as suas arestas. Pouco me importa: imperfeita também, me torno míope, escuto mal, não decoro as lições. Renova-se o sofrimento. Prometeu acorrentado, vôo eterno de águias. Ainda assim, meu coração se preserva - inocentemente despedaçado.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
O elogio só cabe na boca não beijada, no orifício não testado. Amor se empoeira, se esquece entre os cantos da sala e os recantos da alma. A musa dos primeiros dias adquire imperfeições corpóreas, manias inexplicáveis e uma lista de reclamações e pendências. Não cabem mais os elogios. Não cabem as palavras. Não cabe o silêncio. Os anos de paixão se convertem em retratos simpáticos sobre a estante, emprestando alguma alegria à casa vazia e aos corações desolados. O resto, é história não escrita, amores que poderiam ter sido. Não foram. Jamais serão. Só nos cabe a solidão - compartilhada.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
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Eram suas concepções de amor e ódio chocando-se em eterno vaivém. Para ele, mulher bonita estampada na parede; para ela, fantasias frenéticas e proibidas, a cor do adultério imaginado tingindo de gozo sua colcha. Discutiam sobre os limites impossíveis: minha liberdade não te dá o direito que eu não tive de sonhar com minhas musas; minha fantasia não se materializa em corpos tão mais voluptuosos que o meu, tão sequinha de carne e espírito. E assim iam, digladiando-se, despedaçando-se, comendo-se entre os cacos das discussões. Procuravam entre tantas divergências, o ponto cego - talvez amor.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Onde não brotava mais amor, ergueu sua casa: mansão rigorosamente construída sobre um chão sem história. Os dias se passaram, entre noites insípidas e tardes etéreas: aos poucos, ela se volatizava, uma quase não-presença cercada pelo mármore rigoroso. Uma vez fértil, porém, o solo é berço natural de ervas-daninhas - a paixão e o desejo surgiram como pragas de seu quintal, uma trepadeira enorme que avançava ruir toda a estrutura do casulo. O tempo foi de luta, de presença, seu corpo novamente inteiro e afoito em busca da extinção dos sentimentos teimosos, arredios à colheita. Embate vão, as sementes do amor ido brotaram novamente, submergindo o castelo e abandonando sua proprietária ao deserto mais intenso.
Ele prometera. As palavras, contudo, fluíam de sua boca, elogios sutis, carícias derramadas sobre outros ouvidos, os beijos apenas desejados. Ela era seu pão de todo dia, a mulher de sempre, seu sexo banal e casual: frequente demais para ser lembrada, presente em excesso para o nascer da vontade. Cristal rompido, cacos sonoros estalando pela sala empoeirada: para quem se conhecera pelas cartas de amor, a traição das palavras era a mais certeira. Contudo, a estabilidade e os pesos mútuos: continuou onde estava e seus pés aprenderam a se equilibrar entre os pedaços do vaso partido.
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Melhor ser a outra do que ser sempre a mesma, sempre.
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Melhor ser a outra do que ser sempre a mesma, sempre.
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