sexta-feira, 6 de julho de 2007
O meu tema preferido é o tempo. O tempo que não pára, que não pensa antes de dobrar a esquina. O tempo de semear e o de colher, e a sempre longa espera. Esse tempo frio, de um céu sem sol e sem nuvens – nem um alento, nem um amigo. Mas eu sinto frio o tempo inteiro – não se incomode, fique com seu agasalho. Apenas me conte um pouco sobre o seu tempo de vida: o de menino, o adolescer. Me faça rir entoando aquela canção boba sobre jardins proibidos e rosas invioláveis. Olhe para mim: gargalhei tanto que me esquentei toda, sou capaz de pular naquele chafariz, não acredita? Como foi o seu tempo de banho em chafariz e nadar escondido no córrego do bairro? Sabe, eu gosto tanto de água... já me disseram que ela simboliza o tempo com o seu eterno deslizar, e que uma vez dentro de um rio se perde algo de essencial, mas eu só acredito no que vejo: gelo, garrafas Lindóia e vapor que solto pela boca em dias assim gelados. Agora me fale mais, sobre qualquer assunto, sob qualquer condição. Preciso tanto de um amigo... de um que não vá embora. Pra onde você vai? Nepal, bordel, outra rodoviária? Me leva com você? Prometo não aborrecer, eu só quero uma presença que não se esvazie. Clepsidra... o nome consegue ser ainda mais bonito que toda a beleza da idéia de um relógio de água. Imagina só... Já ouviu falar em banho espiritual? Hoje tem gente que faz de banho de loja lavagem moral. Cada um se salva como pode, não é? Mas não quero falar sobre o hoje, que o tempo é curto e o meu anda tão grávido de amanhãs... Seu ônibus chegou? Como, se ainda tenho de falar? Qual é mesmo o seu nome, o seu Deus, você acredita em biogenética? O que você faz da vida e com ela? Você já quis morrer? Não, eu entendo, mas não preciso das respostas, apenas das perguntas... E além disso, você tem um semblante tão expressivo, ele fala por mil silêncios. Pode ir, eu fico por aqui mesmo, esperando pelo meu tempo, o de partir. Boa viagem.
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