quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Onde não brotava mais amor, ergueu sua casa: mansão rigorosamente construída sobre um chão sem história. Os dias se passaram, entre noites insípidas e tardes etéreas: aos poucos, ela se volatizava, uma quase não-presença cercada pelo mármore rigoroso. Uma vez fértil, porém, o solo é berço natural de ervas-daninhas - a paixão e o desejo surgiram como pragas de seu quintal, uma trepadeira enorme que avançava ruir toda a estrutura do casulo. O tempo foi de luta, de presença, seu corpo novamente inteiro e afoito em busca da extinção dos sentimentos teimosos, arredios à colheita. Embate vão, as sementes do amor ido brotaram novamente, submergindo o castelo e abandonando sua proprietária ao deserto mais intenso.
Ele prometera. As palavras, contudo, fluíam de sua boca, elogios sutis, carícias derramadas sobre outros ouvidos, os beijos apenas desejados. Ela era seu pão de todo dia, a mulher de sempre, seu sexo banal e casual: frequente demais para ser lembrada, presente em excesso para o nascer da vontade. Cristal rompido, cacos sonoros estalando pela sala empoeirada: para quem se conhecera pelas cartas de amor, a traição das palavras era a mais certeira. Contudo, a estabilidade e os pesos mútuos: continuou onde estava e seus pés aprenderam a se equilibrar entre os pedaços do vaso partido.
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Melhor ser a outra do que ser sempre a mesma, sempre.
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Melhor ser a outra do que ser sempre a mesma, sempre.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
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Caderno em branco por estrear: um novo ano se aproxima, em meio ao ranço de amores na corda-bamba, tão propensos à queda e ao descanso. A aprendizagem da morte a cada dia: a solidão veio me cercando devagar, me dizendo ser inútil tanto esforço, tanta ladainha – não nasci para famílias perfeitas, melhores amigas, nem para ser mera companhia. O ano que passou me cercou de inimizades conquistadas obscuramente, da hipocrisia cotidiana, me lembrando a todo momento o quanto não sou inesquecível. Não marco nenhuma vida – sou volátil como os momentos breves, e nem sequer digna de foto de recordação. Que o ano novo se aproxime com todo seu esplendor e frescura – como boa espectadora, me resigno ao teatro infame, enquanto não sobrevém o ato final.
PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
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Eu sou o que escrevo: minto todo o tempo. Não só de mentiras meu texto se tece: é ocultamento e exagero, fábula a liberdade. Só sou livre escrevendo, presa às minhas inverdades.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
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Dia de limpar os armários, revirar gavetas, separar o pouco que é meu do tanto que já é irremediavelmente perdido. Processo doloroso, é certo, mas cada vez menos: amadurecer e ver que nada faz realmente sentido tem suas vantagens. Cortar os laços deixa de ser tragédia sofocliana, olhos furados e um longo caminho de dor. Não: a graça está é no novo, e quem me dera viver só de começos. Trocar o amor que já se empoeirou pelas paixões sublimes, toques e lábios e o "eu te amo" pronunciado com tanto fervor e certeza. Fênix, quem me dera.
PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011
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terça-feira, 25 de agosto de 2009
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É um silêncio que chega baixinho, confundindo-se com o som da chuva na janela. É o olhar além da vidraça e não enxergar mais que um dia cinzento. É um mergulhar em si sem encontrar em que se agarrar, pedra lisa apontando o abismo. É o se apoiar em qualquer amor, ínfimo que seja, e não aceitar roteiros que não incluam a ambos – ombro no ombro, solidão apoiando solidão. É o buscar outros rumos, novas metas, uma linha de destino não descoberta na palma: e querer, tanto, apenas uma vez, ser amada com o ardor dos devotos.
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
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Não me ofereça a passagem se quer olhar meu rebolado; não me venha com flores metaforizando sexo e nem com esse olhar insistente de quem escolhe o melhor pedaço de carne no açougue. Eu não sou flor que se cheire nem mulher à moda antiga: não lavo, não passo, não cozinho - muito menos para os outros. Trabalho mais que você, ganho menos, mas os tempos mudarão. Enquanto isso, esconda seu anacronismo no meio das cuecas (que você mesmo lavará) porque eu decido quem vai para a minha cama, por quanto tempo e em troca do quê.
PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011
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