terça-feira, 19 de junho de 2007

“No lo dudes, hermano: abre todas las puertas.
Aunque nada haya dentro.”
(Luis Alberto de Cuenca)

Esqueci a chave da porta de entrada. Suspeitam de mim se busco encontrar um caminho pelos fundos. Pular a janela fere meus princípios básicos de seriedade e sedentarismo. Já não acredito em Natal para me aventurar pela chaminé. Não acredito já no homem naturalmente bom de Rousseau para bater à porta do vizinho implorando ajuda. Nunca brinquei de fugitiva para tentar um túnel. Não consigo empregar o grampo de cabelo com outra finalidade que não seja a de vaidadezinha feminina. Métodos mais bruscos, como o arrombamento da porta, não encontram forças em mim – nem a de vontade, nem a braçal. Apelo para São Longuinho e para um quarto barato de hotel. O primeiro não me dá ouvidos; o segundo me oferece um colchão cravejado de percevejos. Amanhã corro atrás de um chaveiro. E de algum verdadeiro amigo, também. Cansei das minhas noites vazias – em casa ou fora dela.
“E é sempre a chuva nos desertos sem guarda-chuva(...)”

Ela esperava. Atenta. Paciente. Na sala vazia de móveis e de cores, o silêncio denso. Apenas sua respiração e as engrenagens do eterno relógio. Um fio de voz – talvez um suspiro angustiado, nada é certo – às vezes emanava de sua figura, sempre mais curvada pelo tempo: uma corcunda de dor e expectativa. E nada. Nada. Nem um sopro de vento favorável, nem a mão do Criador estendida em ajuda e caridade. Contudo, ainda assim, a espera. Acreditava no Impossível: era o que bastava.

“ O mais é barro, sem esperança de escultura.”
(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 31 de maio de 2007

“Faça uma lista dos sonhos que tinha
Quantos você desistiu de sonhar
Quantos amores jurados pra sempre
Quantos você conseguiu preservar.”
(Oswaldo Montenegro)

Sonhar é para poucos. Amar, para talvez ninguém. Há uma ética capitalista pequeno-pequeno-burguesa que limita não só nossas viagens em terrenos reais (a passagem inacessível, a burrocracia que nos segura por uma suposta segurança, o trem sempre lotado demais, o tempo curto para tantos périplos), mas também nossos passeios (imprescindíveis) no campo do onírico. Não há tempo. E toquemos a marcha pra casa, que já é hora de banho e salgado devorado às pressas antes de outro ônibus e outro emprego. Pode ser que entre esses vai-e-vens surja o amor que nos abrigue em seu colo de fuga e sonho. Mas é tudo tão impossível nessa terra em que nada frutifica: as veredas do imaginário se estreitam a cada passo. Amar é para poucos. Sonhar, para talvez ninguém.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

“Faça uma lista de grandes amigos
Quem você mais via há dez anos atrás
Quantos você ainda vê todo dia
Quantos você já não encontra mais.”
(Oswaldo Montenegro)

E ainda essa vez os reencontros – comigo, contigo, consigo (às vezes). Eternos despertares para o mundo, nem sempre indolores. No tempo tênue, os mesmos reencontros se repetem – por ironia, na mesma esquina, diante das mesmas pessoas – com uma nova lição ou desaprendizagem nova. Os amigos perdidos que reaparecem na nossa sala e no álbum de retratos. E também a velha amiga de infância que nos faz atravessar a rua a fim de evitar o sorriso amarelo e constrangido. Por vezes, ela pode ter igual idéia, e ao nos pilharmos conjuntamente em falta, retomamos o elo amigo perdido entre café e gargalhadas. No mais, pouco resta e as fênix já não podem renascer de tanta cinza acumulada. As reuniões de 10 anos de fim de colégio só satisfazem a uma curiosidade maligna e ao nosso velho instinto difamador. No menos, os diálogos com velhos amigos e amores não passam de necrológios. Abafem os discursos moralistas de amor sem fronteiras: amigo, só o que tem o ombro molhado de choro e que bate na minha porta pedindo um pouco de açúcar e atenção.

terça-feira, 29 de maio de 2007

Final Feliz

Ela – que sempre se acreditara a suma possuidora da misteriosa essência feminina – assistiu espavorida ao casamento de todas as suas amigas de colégio, colegas de bairro, conhecidas de vista e mesmo os das freirinhas fugidas: seu permanente hobby era colecionar buquês. Não se sabe se por acordo tácito das mais novas senhoras de respeito de Lagoa de Paz ou se por pura piedade das santas chorosas dos altares ou (quem o dirá?) se por um desvio não previsto dos búzios – ela os pegara, a todos. A concorrência, é certo, fora diminuindo de porte: na última boda, somente infernais boquinhas de oito anos também se esgoelavam pelo ramalhete franzino. Escolhia de cada um a rosa mais bonita – sempre vermelha, radiante, ofensiva – e a espremia sadicamente entre as páginas da Bíblia ou da Odisséia nunca lidas: era seu modo de conservá-las. E assim se conservou também, sempre à espera daquele que (todos o sabiam) nunca viria. Casamento da neta-sobrinha, pasmo: quem é aquela tão alva a fugir na garupa da moto escandalosa com o noivo?

Ave, Maria

Então era isso. Pôs-se a arrumar a bolsa de tiracolo – os espelhinhos partidos, o batom já no fim – não, não ficaria nada com ele. Com seu orgulho de dama da noite desprezada, contou o dinheiro (sempre cobrara mais barato dele, o cretino) e bateu a porta com um pouco de força, apenas – ele voltara a dormir. No bar quente e úmido, de paredes manchadas, um bêbado roliço e vermelho a olhava menos por admiração que por espanto. As unhas roídas até a carne viva, como não notar? Os olhos lambuzados de rímel barato, o lábio escarlate desbotado, a saia desfiando? Engoliu a cachaça com uma sede infinita e entoou sua “Ave, Maria” num quase sussurro.
“Onde paras tu, ó Imprevisto, que vestes de cor-de-rosa tantas vidas?”
(Florbela Espanca)

São os encontros marcados em dias de chuva e os desencontros vários a qualquer tempo. As declarações de amor e ódio suscitadas pelos mesmos detalhes ínfimos. O susto diante de certos inesperados braços abertos em nosso aniversário. O e-mail que esquecemos de olhar e a grande proposta de emprego, perdida. Os quilos a menos na balança, não obstante a ceia de natal. Os centímetros a mais na cintura, apesar das dietas milagrosas. As rosas que vêm sem data que as peça. É o carro que quebra na estrada, a perna quebrada no tombo, o nariz quebrado do primo pela nossa impaciência, a promessa quebrada diante da nossa tão comum humanidade. São as quebradas da vida, para as quais não bastam a ginga malandra e algum balé sublime: ousar o impossível é a única atitude racional e talvez eficiente.