quinta-feira, 20 de maio de 2010
O elogio só cabe na boca não beijada, no orifício não testado. Amor se empoeira, se esquece entre os cantos da sala e os recantos da alma. A musa dos primeiros dias adquire imperfeições corpóreas, manias inexplicáveis e uma lista de reclamações e pendências. Não cabem mais os elogios. Não cabem as palavras. Não cabe o silêncio. Os anos de paixão se convertem em retratos simpáticos sobre a estante, emprestando alguma alegria à casa vazia e aos corações desolados. O resto, é história não escrita, amores que poderiam ter sido. Não foram. Jamais serão. Só nos cabe a solidão - compartilhada.
segunda-feira, 19 de abril de 2010
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Eram suas concepções de amor e ódio chocando-se em eterno vaivém. Para ele, mulher bonita estampada na parede; para ela, fantasias frenéticas e proibidas, a cor do adultério imaginado tingindo de gozo sua colcha. Discutiam sobre os limites impossíveis: minha liberdade não te dá o direito que eu não tive de sonhar com minhas musas; minha fantasia não se materializa em corpos tão mais voluptuosos que o meu, tão sequinha de carne e espírito. E assim iam, digladiando-se, despedaçando-se, comendo-se entre os cacos das discussões. Procuravam entre tantas divergências, o ponto cego - talvez amor.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
Onde não brotava mais amor, ergueu sua casa: mansão rigorosamente construída sobre um chão sem história. Os dias se passaram, entre noites insípidas e tardes etéreas: aos poucos, ela se volatizava, uma quase não-presença cercada pelo mármore rigoroso. Uma vez fértil, porém, o solo é berço natural de ervas-daninhas - a paixão e o desejo surgiram como pragas de seu quintal, uma trepadeira enorme que avançava ruir toda a estrutura do casulo. O tempo foi de luta, de presença, seu corpo novamente inteiro e afoito em busca da extinção dos sentimentos teimosos, arredios à colheita. Embate vão, as sementes do amor ido brotaram novamente, submergindo o castelo e abandonando sua proprietária ao deserto mais intenso.
Ele prometera. As palavras, contudo, fluíam de sua boca, elogios sutis, carícias derramadas sobre outros ouvidos, os beijos apenas desejados. Ela era seu pão de todo dia, a mulher de sempre, seu sexo banal e casual: frequente demais para ser lembrada, presente em excesso para o nascer da vontade. Cristal rompido, cacos sonoros estalando pela sala empoeirada: para quem se conhecera pelas cartas de amor, a traição das palavras era a mais certeira. Contudo, a estabilidade e os pesos mútuos: continuou onde estava e seus pés aprenderam a se equilibrar entre os pedaços do vaso partido.
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Melhor ser a outra do que ser sempre a mesma, sempre.
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Melhor ser a outra do que ser sempre a mesma, sempre.
terça-feira, 15 de dezembro de 2009
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Caderno em branco por estrear: um novo ano se aproxima, em meio ao ranço de amores na corda-bamba, tão propensos à queda e ao descanso. A aprendizagem da morte a cada dia: a solidão veio me cercando devagar, me dizendo ser inútil tanto esforço, tanta ladainha – não nasci para famílias perfeitas, melhores amigas, nem para ser mera companhia. O ano que passou me cercou de inimizades conquistadas obscuramente, da hipocrisia cotidiana, me lembrando a todo momento o quanto não sou inesquecível. Não marco nenhuma vida – sou volátil como os momentos breves, e nem sequer digna de foto de recordação. Que o ano novo se aproxime com todo seu esplendor e frescura – como boa espectadora, me resigno ao teatro infame, enquanto não sobrevém o ato final.
PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
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Eu sou o que escrevo: minto todo o tempo. Não só de mentiras meu texto se tece: é ocultamento e exagero, fábula a liberdade. Só sou livre escrevendo, presa às minhas inverdades.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
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Dia de limpar os armários, revirar gavetas, separar o pouco que é meu do tanto que já é irremediavelmente perdido. Processo doloroso, é certo, mas cada vez menos: amadurecer e ver que nada faz realmente sentido tem suas vantagens. Cortar os laços deixa de ser tragédia sofocliana, olhos furados e um longo caminho de dor. Não: a graça está é no novo, e quem me dera viver só de começos. Trocar o amor que já se empoeirou pelas paixões sublimes, toques e lábios e o "eu te amo" pronunciado com tanto fervor e certeza. Fênix, quem me dera.
PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011
PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011
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