Algumas palavras escorrem pelas esquinas, se infiltram nos vãos e desvãos de janelas, portas, almas rotas, ouvidos surdos, corações amarrotados. Só palavras - sem existência concreta, sem dedos para tocar, sem lábios a deslizar pela pele. Não levam traições, não concretizam o amor que poderia ter sido. E vestem outra pele para concretizar o amor de todo dia, “bom-dia-boa-tarde-onde-estão-as-crianças-como-foi-o-trabalho-eu-também-te-amo”. Enquanto isso, as outras - palavras de fúria ardente - roçam os ouvidos que nunca alcançam.
terça-feira, 21 de agosto de 2012
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
As notícias saem por meu corpo, vazam pelas extremidades dos dedos, escorrem pelos orifícios. Cada poro tem uma história para contar e quer se fazer ouvir. São tantas as narrativas, são inúmeras as versões de uma vida única - e ainda assim, tão poucos espectadores. Preciso de público para minhas respirações, poses, contrações estomacais e desmaios românticos. Quero ser assistida em cada pulsar, cada ranger de dentes, cada pequena morte. Somos milhares de células, bactérias, sinapses e vazios - e tudo o que pedimos é 1 companhia.
Ela se entregava inteirinha a cada vez. Sempre miudamente e com muita discrição - qualidades tão raras à espécie mulher. Afinal, onde encontrar fêmea que não seja panfletária, explosiva e independente nos dias que correm? Entretanto, ela se orgulhava de ser a Amélia restante, diamante não lapidado por teorias feministas e derivados. Esperava seu amado sem nunca olhar o relógio - e quando ele vinha, cheirando a sexo alheio e rápido (feito por outras que, ao contrário dela, não primavam pela paciência) era grande o amor. Pequena a demonstração, entretanto. Homem não gosta de afeto despejado pelas calçadas, do coração que rastreia os passos errantes de macho. Não. Ela sabia. Homem se agrada é com muita paciência, muita dependência, muita carência. Ela se entregava inteirinha a cada vez - sem nunca conseguir arrancar este maldito diminutivo de sua alma e de sua cara, tão metade.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Ofensas trocadas em miúdos, gotajando no nosso cotidiano de carícias esquecidas. Nada de palavrões, é claro. São palavrinhas venenosas as que ocupam cada canto da sala de estar, se infiltram na sola dos sapatos e nos desvãos entre aliança e dedo. Termos mínimos, pequeninas lágrimas que quase não se veem - aonde o amor acaba, não há espaço para grandiosidades.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
A confiança se perdeu entre os baldes de angústia e as latas pequeninas da auto-estima. Talvez em algum recanto dolorido, em alguma foto antiga, em algum presente inútil e doce.
Pulo três vezes, mas devo rezar para São Longuinho ou para Santo Antônio? Com este amor que me despedaça, creio que só me posso agarrar com o Expedito das causas impossíveis. O batom na camisa, o cheiro alheio, as palavras que enfeitiçam ouvidos ciganos - e eu aqui, presa ao meu lugar de dona-de-casa desastrada.
Como pude perder esta maldita confiança? Talvez tenha ido pelo ralo, no meio dessa louça toda. Aliás, tanta coisa por lavar e passar: começo pela minha alma ou pelo coração amarrotado?
Pulo três vezes, mas devo rezar para São Longuinho ou para Santo Antônio? Com este amor que me despedaça, creio que só me posso agarrar com o Expedito das causas impossíveis. O batom na camisa, o cheiro alheio, as palavras que enfeitiçam ouvidos ciganos - e eu aqui, presa ao meu lugar de dona-de-casa desastrada.
Como pude perder esta maldita confiança? Talvez tenha ido pelo ralo, no meio dessa louça toda. Aliás, tanta coisa por lavar e passar: começo pela minha alma ou pelo coração amarrotado?
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