Ela se entregava inteirinha a cada vez. Sempre miudamente e com muita discrição - qualidades tão raras à espécie mulher. Afinal, onde encontrar fêmea que não seja panfletária, explosiva e independente nos dias que correm? Entretanto, ela se orgulhava de ser a Amélia restante, diamante não lapidado por teorias feministas e derivados. Esperava seu amado sem nunca olhar o relógio - e quando ele vinha, cheirando a sexo alheio e rápido (feito por outras que, ao contrário dela, não primavam pela paciência) era grande o amor. Pequena a demonstração, entretanto. Homem não gosta de afeto despejado pelas calçadas, do coração que rastreia os passos errantes de macho. Não. Ela sabia. Homem se agrada é com muita paciência, muita dependência, muita carência. Ela se entregava inteirinha a cada vez - sem nunca conseguir arrancar este maldito diminutivo de sua alma e de sua cara, tão metade.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Ofensas trocadas em miúdos, gotajando no nosso cotidiano de carícias esquecidas. Nada de palavrões, é claro. São palavrinhas venenosas as que ocupam cada canto da sala de estar, se infiltram na sola dos sapatos e nos desvãos entre aliança e dedo. Termos mínimos, pequeninas lágrimas que quase não se veem - aonde o amor acaba, não há espaço para grandiosidades.
terça-feira, 9 de agosto de 2011
A confiança se perdeu entre os baldes de angústia e as latas pequeninas da auto-estima. Talvez em algum recanto dolorido, em alguma foto antiga, em algum presente inútil e doce.
Pulo três vezes, mas devo rezar para São Longuinho ou para Santo Antônio? Com este amor que me despedaça, creio que só me posso agarrar com o Expedito das causas impossíveis. O batom na camisa, o cheiro alheio, as palavras que enfeitiçam ouvidos ciganos - e eu aqui, presa ao meu lugar de dona-de-casa desastrada.
Como pude perder esta maldita confiança? Talvez tenha ido pelo ralo, no meio dessa louça toda. Aliás, tanta coisa por lavar e passar: começo pela minha alma ou pelo coração amarrotado?
Pulo três vezes, mas devo rezar para São Longuinho ou para Santo Antônio? Com este amor que me despedaça, creio que só me posso agarrar com o Expedito das causas impossíveis. O batom na camisa, o cheiro alheio, as palavras que enfeitiçam ouvidos ciganos - e eu aqui, presa ao meu lugar de dona-de-casa desastrada.
Como pude perder esta maldita confiança? Talvez tenha ido pelo ralo, no meio dessa louça toda. Aliás, tanta coisa por lavar e passar: começo pela minha alma ou pelo coração amarrotado?
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
***
A inocência é um peso, que arrasto sob o vestido florido, salpicado de flores e mágoas. Quem me dera deixá-la deslizar, penhasco abaixo, com toda sua pureza e lealdade. Contudo, ainda não. A vida é longa e preciso dessa leveza que me sustente. Que me complete. Prefiro acreditar em fidelidades integrais, em amores sãos, em amizades incorruptíveis - aos poucos, a vida me ensina as imperfeições, me aponta as suas arestas. Pouco me importa: imperfeita também, me torno míope, escuto mal, não decoro as lições. Renova-se o sofrimento. Prometeu acorrentado, vôo eterno de águias. Ainda assim, meu coração se preserva - inocentemente despedaçado.
quinta-feira, 20 de maio de 2010
O elogio só cabe na boca não beijada, no orifício não testado. Amor se empoeira, se esquece entre os cantos da sala e os recantos da alma. A musa dos primeiros dias adquire imperfeições corpóreas, manias inexplicáveis e uma lista de reclamações e pendências. Não cabem mais os elogios. Não cabem as palavras. Não cabe o silêncio. Os anos de paixão se convertem em retratos simpáticos sobre a estante, emprestando alguma alegria à casa vazia e aos corações desolados. O resto, é história não escrita, amores que poderiam ter sido. Não foram. Jamais serão. Só nos cabe a solidão - compartilhada.
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