sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Macabéa XXI

Ela foi se encolhendo, tão pequenina, se encurvando, tão frágil, diminuindo, tão mísera. À sua frente, ao seu lado, todos Gullivers, quando não muitos Golias em fúria. Sobre seus pés, iam se derramando, iam se quebrando, tudo o que tocava virava catástrofe e revirava tragédia. Peças tão pequeninas ou ainda mais pequeninas que ela própria (e não é que enfim descobria alguma grandeza?) se estilhaçavam e desabavam, seus pés cobertos já do pó que lhe queria tragar ou quem sabe não, ela, a tão pouca-coisa, era quase indiferente. E foi envelhecendo, e foi enruguecendo, e foi entristecendo, e desejando tanto ser um dia, quem sabe após o fim de tudo, alguma pouca coisa. Coisa alguma. Mas a vida sempre aponta para uma qualquer incandescência mesmo nos infinitos areais de gelo e calafrios. E ela amou a si própria com tamanho ardor que reverberou em estrela ascendente alguns segundos antes do carro, da dor e do fim.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Quero abarcar o caroço do infinito com a minha oca palma de mão.

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Embalagem de estar: algum tecido barato, pouco dinheiro nos bolsos, pés descalços e Adriana Calcanhoto ao fundo.
Embalagem de ser: teorias baratas compradas por peso, uma ou outra epifania.
Embalagem de morar: um gato, um sofá, a louça suja.
Embalagem de amar: roupa alguma.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Preciso também de distância no que tange à essa escrita que talvez me revele (como se já não bastassem os vácuos imensos entre nossas entranhas estranhas, os percursos infindáveis entre meu corpo e tantos outros, espremidos no mesmo vagão de trem, a doce ilusão de um único caminho). Me afastar do papel é fácil. Depois de certas quedas, não tão simples é alimentar a menininha que rabiscava pretensões de sonhos no embrulho de pão francês. Quantos aos outros papéis – o de filha, o de amante, o de empregada, o que extrapola todos os anteriores e por isso se esconde, envergonhado – quem me dera possuir a liberdade de decidir qual não mais me cabe (o amassar e jogar na cesta). Se ao menos a reciclagem metafórica fosse mais indolor. Um dia.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A dor que levo só eu sei. Grande demais para esconder sob a roupa, minha tristeza vara bolsos e botões, sempre à procura de mais espaço. E lugares não faltam em mim - sou toda lacunas e vazio. E não há alma ou corpo que me preencha - desertos sem ecos para o grito que jamais soltarei.

PUBLICADO - LIVRO DA TRIBO 2011

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Se o mundo é uma piada de Deus, o cara tem um humor infernal.

O dito pelo interdito

Já dizia o velho Dito:
mais vale um sonho na mão
que uma realidade em vão;
quem se esmera
sempre dança;
fechem-se as portas
da esperança!

Haja a barriga
sem o rei;
cara-de-pau
com madeira de lei;
porque em terra de cego,
quem tem olho é rei;
quem não tem, é real.
E se viemos do nada
é pra irmos pro tudo no final.

Por linhas tortas lê-se a vida;
coloquemos o dedo na ferida.
Não aceitemos o presente
por falta de futuro;
a pseudo-liberdade pela aparente
falta de muro;
a compra a prazo que mente
falta de juro.

De mãos dadas, meu irmão.
Meu irmão, meu irmão:
porque a união
faz o açúcar.