sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
Macabéa XXI
Ela foi se encolhendo, tão pequenina, se encurvando, tão frágil, diminuindo, tão mísera. À sua frente, ao seu lado, todos Gullivers, quando não muitos Golias em fúria. Sobre seus pés, iam se derramando, iam se quebrando, tudo o que tocava virava catástrofe e revirava tragédia. Peças tão pequeninas ou ainda mais pequeninas que ela própria (e não é que enfim descobria alguma grandeza?) se estilhaçavam e desabavam, seus pés cobertos já do pó que lhe queria tragar ou quem sabe não, ela, a tão pouca-coisa, era quase indiferente. E foi envelhecendo, e foi enruguecendo, e foi entristecendo, e desejando tanto ser um dia, quem sabe após o fim de tudo, alguma pouca coisa. Coisa alguma. Mas a vida sempre aponta para uma qualquer incandescência mesmo nos infinitos areais de gelo e calafrios. E ela amou a si própria com tamanho ardor que reverberou em estrela ascendente alguns segundos antes do carro, da dor e do fim.
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